Edith Stein | Viver eucaristicamente

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
A Eucaristia é o centro da vida da Igreja. Assim o entendeu e viveu Edith Stein. A autêntica comunhão com Deus realiza- se como mistério de encarnação. O caminho é progressivo: é um caminho de humildade, virtude imprescindível para se poder adentrar na vida de Cristo, através de uma relação contínua com Ele, uma relação de comunhão. Este é o sentido do texto de Edith Stein  que apresentamos.


Edith Stein*

 

Quem come a minha carne…

«“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6, 54). O Salvador, que sabe que somos seres humanos e que como tal permanecemos, que cada dia  devemos lutar com as debilidades humanas, vem em ajuda da nossa humanidade de modo verdadeiramente divino. Assim como o nosso corpo de carne necessita do pão quotidiano, do mesmo modo também o corpo divino em nós necessita incessantemente de se alimentar.

Este é o pão descido do céu” (Jo 6, 58). Naquele que verdadeiramente faz deste pão o seu pão quotidiano, cumpre-se cada dia o mistério do Natal, a Encarnação do Verbo. Este é o caminho seguro para alcançar o “ser um com Deus”, e para crescer cada dia com maior força e profundidade no Corpo Místico de Cristo. Sei muito bem que para muitos este desejo pode parecer demasiado radical. Na prática, significa para a maior parte dos que se convertem, uma mudança total da vida interior e exterior. E assim tem de ser!

Devemos dar lugar na nossa vida ao Salvador eucarístico, de modo que possa transformar a nossa vida na sua: é pedir muito? Temos sempre tanto tempo para tantas coisas inúteis, para lermos toda a espécie de notícias inúteis em livros, revistas,  jornais, para estarmos sentados ociosamente em qualquer café, para conversarmos na rua durante um quarto de hora ou meia hora: tudo “dissipações”, nas quais gastamos o próprio tempo e as próprias energias de modo fragmentado. Não seria verdadeiramente possível arranjarmos uma hora pela manhã na qual não nos dispersemos, mas nos recolha- mos, em que não malgastemos, mas antes acumulemos energias para sustentar todo o dia?

Porém, é certamente necessário mais do que uma hora. Devemos viver as outras horas na base daquela, de modo que a ela possamos retornar. Já não é possível “deixarmo-nos distrair”, nem mesmo temporariamente. Não podemos escapar ao juízo daqueles com quem nos relacionamos diariamente. Mesmo que não nos digam explicitamente uma palavra, percebemos qual a atitude dos outros em relação a nós. Procuraremos adaptar-nos ao ambiente e, se não for possível, a vida em comum tornar-se-á num tormento. O mesmo acontece também na relação quotidiana com o Salvador. Tornamo-nos sempre mais sensíveis ao que lhe agrada e ao que lhe desagrada. Se anteriormente estávamos de um modo geral satisfeitos connosco, agora tudo será diverso. Descobriremos muitas coisas em que mudar, e mudar-se-á o que se pode. E descobriremos algumas coisas que já não são apropriadas e positivas, e que todavia não mais se podem mudar. Seremos então mais pequenos, mais humildes; seremos mais pacientes e indulgentes com a palha nos olhos dos outros, porque se conseguirá ver a trave nos nossos; finalmente aprenderemos a suportar-nos a nós à luz inexorável da divina Presença, e a abandonarmo-nos à misericórdia divina, que pode libertar-nos de tudo o que rouba as nossas energias.

Há um outro modo diverso de estarmos satisfeitos connosco, passar de ser um “bom católico” que “cumpre o seu dever”, lê um “bom jornal”, “ vota como se deve”, e para o resto faz o que lhe parece e apraz, a uma vida vivida mão na mão de Deus, e recebida da mão de Deus, com a simplicidade da criança e a humildade do publicano. Contudo, quem nela avança uma vez, já não voltará para trás. Isto é o que significa ser filhos de Deus: tornar-nos pequenos. Mas, significa, ao mesmo tempo, tornarmo-nos grandes.

Viver eucaristicamente significa sair das angústias da própria vida e inserir-se no horizonte infinito da vida de Cristo. Quem procura o Senhor na sua Casa, não quererá tê-l’O sempre ocupado falando-Lhe de si mesmo e das suas preocupações. Começará a interessar-se pelas preocupações do Senhor. A participação diária no Sacrifício eucarístico arrasta-nos, sem nos darmos conta, na grande corrente da vida litúrgica. As orações e os gestos da celebração litúrgica tornam a representar na nossa alma, no decorrer do ano litúrgico, a história da Salvação, e fazem-nos penetrar sempre mais profundamente no seu sentido. E o próprio Sacrifício imprime em nós sempre mais o mistério central da nossa fé, ponto cardeal da História da Salvação; o mistério da Encarnação e da Redenção. Quem poderá participar com empatia de espírito e de coração na Eucaristia sem ser ele próprio tocado pelo espírito de sacrifício, sem ser tomado pelo desejo de ser ele próprio e a sua pequena existência pessoal, colaborador na grande obra de redenção do Salvador?».

*Santa Teresa Benedita da Cruz, As mais belas páginas de Edite Stein. Edições Carmelo, Avessadas 2003. pp 74-76.