Edith Stein | Viver como moradas onde Deus habita

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
Dar-se por inteiro a Deus, viver como seus filhos, como moradas onde Ele habita, só é possível na medida em que O vamos descobrindo e conhecendo como amante. Deste modo, o dom da filiação divina ou da inabitação trinitária convertem-se numa realidade viva. Esta entrega total a Deus, como fruto da dinâmica do amor, concretiza-se numa entrega generosa à criação inteira.
Surge, ao mesmo tempo e de um modo natural, o amor ao próximo, o qual já não se contempla como alguém longínquo, mas como membro do corpo de Cristo.

Edith Stein*

Uma autêntica filiação divina

«O dom de si a Deus é, ao mesmo tempo, dom ao sim de Deus que é amado, e à criação inteira, quer dizer, a toda a essência espiritual unida a Deus.

Mas o homem não é capaz por si só e pela sua própria natureza de semelhante dom de amor.

Se não pode chegar ao conhecimento e ao amor efectivamente realizado de outros homens, a não ser que eles próprios se lhe abram amando-o – porque tudo aquilo a que damos o nome de conhecimento e de amor dos homens não constitui senão caminhos e graus preparatórios que levam a isto –, como chegará ao amor de Deus, que não vê, sem antes ser amado por Ele?…

Mas para se dar a Ele amando-O, devemos aprender a conhecê-l’O como amante. Somente assim Ele se pode abrir a nós. Em certa medida, o Verbo da revelação chega a este resultado e a uma orientação amorosa, se nos atarmos ao seu significado, pertence a aceitação plena de fé da revelação divina. Mas este conhecimento apenas se aperfeiçoa mais quando Deus se dá Ele mesmo à alma na vida da graça e da glória, quando a faz participante da sua própria vida divina e a faz entrar nela.

A vida divina que se desenvolve na alma amante de Deus não pode ser diferente da vida trinitária da divindade. A alma dá-se ao ser trinitário. Entrega-se à vontade paterna de Deus que, por assim dizer, gera novamente nela o seu Filho. Ela une-se com o Filho e queria perder-se n’Ele a fim de que o Pai já não veja mais nela senão o Filho. A sua vida une-se ao Espírito Santo, transforma-se numa efusão de amor divino.

É evidente que esta imagem de Deus no espírito criado graças à união de amor, fruto da graça e da glória, não é comparável a nenhuma imagem meramente natural. A palavra imagem já quase que não é o termo adequado. Deve ser compreendida no sentido em que se diz que o Filho é imagem do Pai.

Trata-se de uma autêntica filiação divina».

(“Ser finito e ser eterno”)

Cristo é a Cabeça…

«Cristo é a Cabeça, nós os membros do Corpo Místico somos membros uns dos outros, e todos os homens somos um em Deus, somos uma vida divina.

Se Deus é Amor e vive em cada um de nós, temos de nos amar com amor fraterno. O nosso amor ao próximo é a medida do nosso amor a Deus. Mas é um amor diferente do amor natural aos homens.

O amor natural surge entre aqueles que estão unidos por laços de sangue, ou por afinidade de carácter, ou por interesses comuns.

Os outros são “estranhos”, não nos dizem respeito, e chegamos a dizer que são incompatíveis connosco, e até nos afastamos deles fisicamente. Para os cristãos não há “pessoas estranhas”.

O nosso próximo é todo aquele que está diante de nós e tem necessidade de nós; não importa se é nosso familiar ou não, se nos “agrada” ou não, se é ou não “moralmente digno” de ajuda.

O amor de Cristo não conhece fronteiras, nunca se cansa, não tem repugnância da sujidade e da miséria. Cristo veio para os pecadores e não para os justos.

E se o amor de Cristo vive em nós, então agiremos como Ele, e iremos à procura das ovelhas perdidas.

O amor natural procura apoderar-se da pessoa amada. Cristo veio ao mundo a fim de recuperar para o Pai a humanidade perdida; e quem ama com o seu amor, quer os homens para Deus e não para si.

Este é, sem dúvida, o caminho mais seguro para os possuir eternamente; pois quando escondemos alguém em Deus, somos um com ele em Deus, enquanto a tentação de o “conquistar” para nós conduz sempre – mais tarde ou mais cedo – a perdê-lo.

Isto é válido para a nossa alma, a dos outros, e para qualquer outro bem exterior: quem se afadiga por ganhá-lo e conservá-lo, perde-o; quem o entrega a Deus, ganha-o».

(O mistério do Natal)

 

*Santa Teresa Benedita da Cruz, As mais belas páginas de Edite Stein. Edições Carmelo, Avessadas 2003. pp 30-33.
Imagem de Myriam Zilles por Pixabay