Edith Stein | “O Amor – essência da vida”

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
A perspectiva cristã contempla o amor como algo mais do que um simples sentimento natural. Para Edith Stein, o amor não é só o melhor na vida do homem, mas define-se a si mesmo como o acto mais livre de que o ser humano é capaz. Quando Jesus nos deixa o seu mandamento novo não nos está a pedir nada impossível.
O amor ao próximo, ao inimigo, é claro sinal da vida de união com Deus, que transforma o homem ou a mulher em dom, em capacidade de se entregar totalmente ao outro, capacidade que só se realiza no sumo grau de liberdade.
Amor e dom fundem-se, e o seu primeiro fruto é a harmonia. O amor é entrega sem reservas. O único limite é o mal. Por isso, o amor autêntico não busca apenas o bem, mas oferece-se totalmente ao bem: ao próprio Deus.
 

Edith Stein*

 

Talvez a proposição expressa…

«Talvez a proposição expressa mais acima: “o amor é o que há de mais livre” tenha suscitado a surpresa e uma viva oposição.

O amor e o ódio consideram-se naturalmente como poderes elementares que penetram com força na alma sem ela se poder defender. Os homens tiveram já o costume de dizer, quando falam das suas inclinações e das suas antipatias, que perante elas “nada podem fazer”.

E de facto, a alma responde à impressão que recebe de uma pessoa de modo involuntário – a miúdo desde o primeiro encontro e se não durante um conhecimento mais longo –, com simpatia ou antipatia, outras vezes talvez com indiferença; sente-se atraída ou recusada; e pode-se encontrar aqui uma forma de posição do seu próprio ser em relação ao que lhe é estranho; sente-se atraída para o que lhe promete um enriquecimento ou um desafio, e retrocede cheia de medo diante de alguém que signifique um perigo para ela.

Por outro lado, são possíveis aqui graves ilusões: as aparências podem esconder o ser verdadeiro do homem e, por conseguinte, também o significado que se pode ter para os outros homens. Estes movimentos naturais não constituem, em, algo que se poderá simplesmente não ter em conta; mas também não seria muito racional abandonar-se a eles pura e simplesmente. Estes movimentos naturais podem e devem ser objecto de um controlo com a ajuda do entendimento e, graças à vontade, não só é possível, mas necessário exercer sobre eles uma influência.

Na presença do jogo das inclinações e antipatias levanta-se o mandamento do Senhor: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Tal preceito vale sem condições nem restrições.

O próximo não é aquele que me é simpático. É todo o homem que se aproxima de mim sem excepção. E novamente diz-se aqui: tu podes porque deves. É o Senhor quem o exige e Ele não exige nada impossível. Ou antes, torna possível o que seria naturalmente impossível.

Os santos, que confiando na palavra divina, decidiram elevá-la até ao amor heroico dos seus inimigos, tiveram realmente a experiência desta liberdade de amor. Talvez uma aversão natural se manifestasse ainda durante certo tempo; mas não tem força e não pode actuar sobre o comportamento que é conduzido pelo amor sobrenatural.

 Na maior parte dos casos, ela cede perante o poder superior da vida divina que enche mais e mais a alma. O amor é, no seu último sentido, o dom do ser e a união com o amado. Aquele que cumpre a vontade de Deus aprende a conhecer o espírito divino, a vida divina, o amor divino; e tudo isto não é senão o próprio Deus.

Com efeito, ao executar com a mais profunda entrega o que Deus exige dele, a vida divina torna-se a sua própria vida interior: encontra a Deus em si mesmo, quando entra em si.

Quando a alma está cheia da vida divina, é imagem do Deus Trinitário num sentido novo e superior ao que concerne às demais criaturas e se refere a ela própria segundo a sua estrutura natural». (“Ser finito e ser eterno”)

 O amor é dom de si ao bem…

«O dom, no sentido próprio, não é possível senão a uma pessoa. Assim o amor, no sentido pleno e próprio do termo, vai de pessoa a pessoa, embora muitos sentimentos da espécie do amor tenham por objecto algo impessoal. O dom conduz à harmonia; não se aperfeiçoa senão pelo acolhimento por parte da pessoa amada.

Assim, o amor exige, para o seu aperfeiçoamento, o dom recíproco das pessoas. Só assim o amor pode ser adesão total, porque uma pessoa não se abre a outra senão no dom. Só na harmonia é possível um conhecimento propriamente dito das pessoas.

O amor, nesta sua máxima realização, abrange, portanto, o conhecimento. É, ao mesmo tempo, passivo e acto livre. Deste modo, abrange também a vontade e constitui a realização do desejo. Mas, o amor, na sua máxima perfeição, não se realiza senão em Deus: no amor recíproco das pessoas divinas, no ser divino dando-se a si mesmo.

O amor é o ser de Deus, a vida de Deus, a essência de Deus. Corresponde a cada uma das pessoas divinas e à sua unidade.

… o amor é o que há de mais livre, porque não dispõe apenas de uma emoção isolada, mas do conjunto do próprio eu, da própria pessoa. … o amor deve ser sempre o dom de si, para que seja um amor autêntico». (“Ser finito e ser eterno”)

*Santa Teresa Benedita da Cruz, As mais belas páginas de Edite Stein. Edições Carmelo, Avessadas 2003. pp 27-29.