Edith Stein | Desenvolver em nós a imagem do nosso Criador

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
A vocação sobrenatural, à qual o ser humano é chamado, consiste fundamentalmente em alcançar a união com Deus, que vai alcançando à medida que desenvolve em si mesmo a imagem do seu Criador, e adquire em cada indivíduo um carácter peculiar. Este carácter é que se entende por individualidade, sinal da grandeza de Deus, que consegue deixar uma marca da sua imagem diferente em cada indivíduo.
A expressão mais sublime e perfeita do desenvolvimento da vocação humana alcança-se quando o homem ou a mulher se entregam a Deus por amor. Quando a sua vida é reflexo de um autêntico seguimento de Cristo.

Edith Stein*

 

I.Conhecemos a interioridade

«Conhecemos a interioridade mais profunda da alma como a morada de Deus. Pela sua espiritualidade pura, esta interioridade é capaz de acolher nela o espírito de Deus. Pela sua livre personalidade pode dar-se a Ele, visto que este dom é necessário para tal acolhimento.

A vocação à união com Deus é uma vocação à vida eterna. Já naturalmente a alma humana, enquanto produto espiritual puro, não é mortal. Enquanto espiritual e pessoal, é capaz, por outro lado, de um crescimento de vida sobrenatural, e a fé ensina-nos que Deus lhe quer conceder a vida eterna, isto é, a participação eterna da sua própria vida.

Assim a alma individual com essa sua maneira de ser única já não é efémera; não está apenas destinada a manifestar em si mesma a particularidade específica por uma duração passageira, e no decurso desta duração a transmiti-la aos seus descendentes a fim de que seja salvaguardada mais além da vida individual: a alma individual encontra-se destinada a uma vida eterna, o que permite compreender que deve reproduzir a imagem de Deus de uma maneira completamente pessoal (…).

Mas quando a vida terrestre chegue ao seu fim e tudo o que era perecedouro se separe, então cada alma humana se conhecerá tal como é conhecida (1 Cor 13, 12), isto é, tal como é diante de Deus: ou seja, o que Deus fez ao criá-la, o fim para o qual a criou de maneira inteiramente pessoal, e o que ela chegou a ser na ordem da natureza e da graça e a isto há que acrescentar principalmente: em virtude das suas decisões livres (…).

O amor leva o selo da maneira de ser pessoal. O que permite compreender novamente que Deus pode ter criado em cada alma humana uma morada própria a fim de que a plenitude do amor divino encontre na multiplicidade das almas, diferentes pela sua natureza, um espaço mais amplo para a sua participação». (“Ser finito e ser eterno”)

 

II. Ser totalmente de Deus

«Ser totalmente de Deus, entregar-se a Ele e ao seu serviço por amor, é a vocação, não só de alguns eleitos, mas de todo o cristão: consagrado ou não, homem ou mulher…

Todos são chamados a seguir a Cristo. E quanto mais se avança por este caminho, tanto mais se torna semelhante a Cristo, e visto que Cristo personifica o ideal da perfeição humana – livre de toda a mancha, rica de caracteres masculinos e femininos, livre de toda a limitação terrena –, os seus fiéis seguidores são elevados acima dos limites naturais.

Por isso, encontramos em homens santos uma bondade e uma ternura feminina, uma solicitude verdadeiramente maternal pelas almas a eles confiadas; e nas mulheres santas uma audácia e uma disponibilidade e decisão autenticamente masculinas.

Deste modo, o seguimento de Cristo implica o desenvolvimento em plenitude da vocação original do homem: ser autêntica imagem de Deus; imagem do Senhor da criação, conservando, protegendo e fazendo crescer toda a criatura que se encontra no seu ambiente; imagem do Pai, gerando e educando – por paternidade e maternidade espiritual – filhos para o reino de Deus.

 A elevação acima dos limites da natureza, a obra mais excelsa da graça, não se alcança somente com uma luta individual contra a natureza ou com a negação dos seus limites. Alcança-se somente por meio da humilde obediência à nova ordem dada por Deus». (“Ser finito e ser eterno”)

*Santa Teresa Benedita da Cruz, As mais belas páginas de Edite Stein. Edições Carmelo, Avessadas 2003. pp 21-23.