Edith Stein | A Vocação do Ser Humano

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

O ser humano, seja homem ou mulher, define-se na sua vida por uma missão, uma vocação que dá conteúdo e sentido à sua existência. Para Edith Stein, a vocação da pessoa tem a sua origem em Deus, no mesmo momento da sua criação, do seu chamamento à vida. E o desenvolvimento da mesma identifica-se com o cumprimento da vontade de Deus. Uma vontade que o homem descobre dentro de si e que se articula com a sua vocação natural e sobrenatural.
 Todo o homem e mulher receberam uma tríplice vocação natural comum: ser imagem de Deus, procriar e dominar a terra. O modo de realização será diverso segundo o sexo, onde radica o fundamento para poder falar de uma vocação diferencial sexuada.

Edith Stein*

I. A vocação natural do homem

«A vocação natural do homem… do mesmo modo que a de toda a criatura, consiste em desenvolver, na sua pureza e conforme a ordem estabelecida por Deus, o que o Criador semeou em nós.

 O especial privilégio que o homem tem é que não se pode desenvolver somente de modo instintivo e natural, mas como ser racional pode colaborar livremente com o seu conhecimento e vontade.

É necessária a formação das diversas forças do organismo humano de tal modo que corpo e alma vivam em harmonia e não se produza um desenvolvimento unilateral contra a outra parte.

 Por isso, a ordem tem que ser conservada, que o corpo se submeta à alma como instrumento disposto ao serviço.

 Do mesmo modo, há que prestar atenção a todas as forças da alma: as sensitivas inferiores e as espirituais superiores, mas mantendo as inferiores sob o domínio das superiores.

 E, claro, não se devem esquecer as mais altas potências e dons: razão, coração e vontade têm que ser consideradas de tal modo que a razão seja a luz que indique o caminho às outras.

 A perfeição da sua natureza, conforme o desenvolvimento da criatura, é em si uma glorificação do Criador.

 No homem, juntamente com a sua vocação natural aparece, além disso, uma sobrenatural. Ele tem de se pôr conscientemente, com o que é e o que tem, ao serviço do Criador, como filho de Deus viver nas suas mãos e assim amadurecer na contemplação de Deus. Ser filho de Deus é um dom da graça. Mas não é somente isso.

O homem caído, cuja natureza já não é incólume e não possui a garantia do seu autêntico desenvolvimento, necessita da colaboração da graça para alcançar a sua vocação natural.

E inclusive com a sua colaboração, o ideal de um perfeito e completo desenvolvimento da natureza humana não se realizará na sua totalidade. Disposições pessoais e circunstâncias condicionam uma certa unilateralidade». (“A determinação vocacional da mulher”)

 

II. Na natureza de um homem

«Na natureza de um homem está previsto o seu chamamento, a sua vocação e profissão: quer dizer, a actividade, o trabalho para o qual está orientado a partir do seu íntimo.

O caminho da vida faz amadurecer a vocação de cada um e dá-a a compreender aos outros, de tal modo que estes podem falar do chamamento por meio do qual, cada um pode porventura encontrar o seu lugar na vida.

 A natureza de um ser humano e o desenvolvimento da sua vida não se realizam casualmente, mas são, à luz da fé, obra de Deus. No fundo, quem chama é Deus.

Ele é quem chama cada homem à actividade que lhe corresponde, cada indivíduo para o que ele é pessoalmente chamado; e, além disso, chama o homem e a mulher ao que é próprio e particular de cada um.

 Não parece fácil distinguir o peculiar da chamada do homem e da mulher, uma vez que se discutiu sobre o tema durante muito tempo. E, no entanto, existem muitos modos através dos quais chega até nós o chamamento: o próprio Deus fala-nos no Antigo e no Novo Testamento.

 A diferença descobrimo-la presente na natureza do homem e da mulher; a própria história nos dá uma explicação, e as necessidades do nosso tempo falam-nos insistentemente disso.

Tudo isto nos apresenta um tecido multiforme; o modelo não é, porém, tão opaco que não nos permita identificar algumas linhas de distinção.

Não temamos, pois, fazermo-nos a pergunta: qual é a vocação do homem e qual é a vocação da mulher? As primeiras palavras da Escritura que falam do homem, assinalam-nos uma vocação comum tanto para o homem como para a mulher:

 “Façamos o homem à nossa imagem e à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os animais da terra e sobre todos os répteis que se movem sobre ela. E Deus criou o homem à Sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. E abençoando-os, disse-lhes: Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre os animais que se movem na terra”.

Já na primeira narração da criação do homem se fala da diferença entre macho e fêmea.

 Depois é-lhes confiada uma tríplice missão: ser imagem de Deus, dar origem a uma posteridade e dominar a terra. Não se fala directamente aqui sobre o modo de levar a cabo esta tríplice missão, se tem que ser cumprida de um modo diverso, se bem que se pode considerar deste modo pela mesma distinção em sexos». (“A vocação do homem e da mulher segundo a ordem da natureza e da graça”)

*Santa Teresa Benedita da Cruz, As mais belas páginas de Edite Stein. Edições Carmelo, Avessadas 2003. pp 17-20.