Edith Stein | A porta para o mistério da vida interior

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

 

Como a oração de Jesus, assim a oração do cristão necessita de um clima de silêncio e de solidão. A oração sacerdotal de Jesus é uma das chaves fundamentais para compreender o mistério da vida interior do homem.
A oração, a vida orante ou contemplativa, é o coração da Igreja. Quantos se dedicam à vida de oração tornam parte da vida íntima que fortalece a acção da Igreja. Quantos vivem escondidos com Cristo em Deus colaboram na obra da redenção iniciada por Cristo. Neste sentido, a oração adquire um valor altamente apostólico.

Edith Stein*

 A oração sacerdotal de Jesus…

«A oração sacerdotal de Jesus revela-nos o mistério da vida interior: a imanência recíproca das pessoas divinas e a inabitação de Deus na alma. Nestas secretas profundidades se preparou e realizou oculta e silenciosamente a obra da redenção; e assim continuará até que no fim dos tempos cheguem todos à perfeita unidade.

No silêncio eterno da vida intradivina decidiu-se a obra da redenção. No oculto da silenciosa habitação de Nazaré veio a força do Espírito Santo sobre a Virgem que orava em soledade, e realizou a encarnação do Redentor. Reunida à volta da Virgem, que orava em silêncio, esperou a Igreja nascente a nova infusão do Espírito, que a devia vivificar para uma maior clareza interior e para uma acção exterior frutuosa.

Saulo esperou, em oração solitária, na noite da cegueira que Deus impusera aos seus olhos, a resposta do Senhor à sua pergunta: Que quereis que faça? (Act 9, 5). S. Pedro também se preparou na oração solitária para a missão entre os pagãos (Act 10). E assim continua a ser ao longo de todos os séculos. Os acontecimentos visíveis da história da Igreja que renovam a face da terra prepararam-se no diálogo silencioso das almas consagradas a Deus.

A Virgem, que guardava no seu coração a palavra de Deus, é o modelo daquelas almas atentas nas quais revive continuamente a oração sacerdotal de Jesus. O Senhor escolheu com preferência as mulheres que, como ela, se esqueceram completamente de si mesmas para mergulhar na vida e na paixão de Cristo, a fim de serem seus instrumentos na realização de grandes obras na Igreja: uma santa Brígida, uma Catarina de Sena; e quando Santa Teresa, a grande reformadora da sua Ordem no tempo da apostasia, quis ajudar a Igreja, viu o meio na renovação da verdadeira vida interior. (…)

Quem lhe deu a esta freira, que vivia para a oração há dezenas de anos num convento, o desejo ardente de realizar algo pela causa da Igreja, e um olhar agudo para ver a miséria e as necessidades de seu tempo? Precisamente o facto de viver em oração, de se ter deixado atrair pelo Senhor cada vez mais profundamente ao interior do seu “Castelo interior”. (…) A historiografia oficial não menciona estas forças invisíveis e impossíveis de medir. Mas a confiança do povo crente e o juízo da Igreja, que comprova e pondera com prudência, conhecem-nas. E o nosso tempo vê-se obrigado, quando tudo o demais fracassa, a esperar a última salvação destas correntes ocultas».

 

 Na vida oculta e silenciosa

«A obra da redenção realiza-se na vida oculta e silenciosa. No diálogo silencioso do coração com Deus preparam-se as pedras vivas com as quais vai crescendo o Reino de Deus e se forjam os instrumentos seletos que promovem a sua construção.

A corrente mística que atravessa os séculos não é nenhum braço perdido que se separou da oração da Igreja, mas é a sua vida mais íntima. Quando rompe com as formas tradicionais, fá-lo porque vive nela o Espírito que sopra onde quer. O Espírito que criou as formas tradicionais e tem de criar continuamente novas formas. Sem ele não haveria nem liturgia nem Igreja.

Não era a alma do salmista régio uma harpa cujas cordas soavam ao suave sopro do Espírito Santo? Do coração desbordante da Virgem Maria, cheia de graça, brotou o hino do “Magnificat”. O cântico profético do “Benedictus” abriu os lábios emudecidos do ancião sacerdote Zacarias quando a palavra secreta do anjo se converteu em realidade visível. O que subiu do coração cheio do Espírito e encontrou expressão numa palavra e numa forma vai-se transmitindo de geração em geração.

Assim, a corrente mística forma o canto de louvor polifónico e crescente à Trindade, ao Criador, ao Redentor e ao Consumador. Portanto, não se pode contrapor a oração interior, livre de todas as formas tradicionais, como piedade “subjectiva”, à liturgia como oração “objectiva” da Igreja.

Toda a oração autêntica é oração da Igreja, e é a própria Igreja que aí ora, porque é o Espírito Santo que vive nela e que, em cada alma, “intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rom 8, 26). Precisamente isto é a oração “autêntica”, pois “ninguém pode dizer ‘Senhor Jesus’, senão no Espírito Santo” (1 Cor 12, 3). Que seria a oração da Igreja, senão fosse a entrega dos grandes amantes a Deus, que é Amor? A ilimitada entrega de amor a Deus e a doação de Deus a nós, a união completa e duradoura, é a suprema elevação do coração que nos é possível alcançar, o supremo grau de oração.

Os homens que o alcançaram são verdadeiramente o coração da Igreja: neles vive o amor sacerdotal de Jesus. Escondidas com Cristo em Deus, não podem senão irradiar noutros corações o amor divino de que estão cheios, e assim colaborar em levar à perfeição a união de todos em Deus, que foi e é o grande desejo de Jesus.

Assim compreendeu Maria Antonieta de Geuser a sua vocação. Teve que cumprir no meio do mundo esta suprema missão do cristão; e o seu caminho é, sem dúvida, um exemplo reconfortante para muitos que hoje se sentem impulsionados a comprometer-se com a Igreja através de uma seriedade radical na sua vida espiritual e aos quais não se lhes concede seguir essa vocação no retiro de um convento. A alma que no mais alto grau de oração entrou na “tranquila actividade da vida divina”, não pensa noutra coisa senão em entregar-se ao apostolado a que Deus a chamou».

(“A oração da Igreja”)

 

*Santa Teresa Benedita da Cruz, As mais belas páginas de Edite Stein. Edições Carmelo, Avessadas 2003. pp 54-57.
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay