Edith Stein | A oração, trato de amizade…

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

 

 

A visão e a vivência que Edite Stein tem da oração é sobretudo um diálogo de amor entre Deus e o homem, uma intercomunicação amorosa, a obra mais sublime de que o espírito humano é capaz. Um caminho que é gradual, que passa pela oração vocal, mental, de quietude, (…) até alcançar o ponto mais alto, o do matrimónio místico
A oração não é uma simples invenção do homem. Corresponde à sua natureza criada. A alma é templo de Deus, e no seu interior o homem rende culto e entra em comunicação com a divindade. A autêntica oração segue o exemplo de Jesus, chave para compreender e viver a oração cristã.

Edith Stein*

I. A oração é o trato de amizade…

 

«A oração é o trato de amizade da alma com Deus. Deus é amor, e amor é bondade que se dá a si mesma; uma plenitude existencial que não se encerra em si, mas que se derrama, que quer dar-se e tornar feliz. Toda a criação deve o seu ser a esse transbordante amor de Deus. As criaturas mais dignas são os seres dotados de espírito, que recebem esse amor de Deus entendendo-o, e podem corresponder livremente: os anjos e os homens.

A oração é a actividade mais sublime de que é capaz o espírito humano. Mas não é só fadiga humana. A oração é como a escada de Jacob, pela qual o espírito humano sobe até Deus, e a graça de Deus desce aos homens. Os graus da oração distinguem-se entre si, na medida da participação entre a potência da alma e a graça de Deus. Ali onde a alma com as suas potências não pode actuar mais, é como um cântaro que se enche de graça, fala-se devida mística da oração.

O primeiro grau é a oração vocal, que se realiza com determinadas fórmulas faladas: o Pai Nosso, a Ave-maria, o Rosário, as Horas canónicas. Essa oração vocal não deve entender-se de modo que consista só em pronunciar as palavras. Onde a oração vocal se pratica de modo que o espírito não se eleva para Deus, é uma aparência de oração, não uma oração verdadeira. As palavras são um apoio para o espírito, indicando-lhe um caminho.

Um nível mais elevado é a meditação. Nela o espírito desenvolve-se em liberdade, sem impedimentos de linguagem. Por exemplo, meditamos no mistério do nascimento de Jesus. A imaginação transporta-nos à gruta de Belém, mostra-nos o Menino no presépio, os seus santos pais, os pastores e os reis. O seu entendimento reflecte sobre a grandeza da misericórdia divina, o coração sente-se cheio de amor e gratidão, a vontade decide-se a tornar-se mais digna do amor divino. Deste modo, a meditação absorve todas as potências da alma, e, exercida com perseverança, pode pouco a pouco mudar completamente o homem.

O Senhor costuma premiar essa perseverança na meditação de outro modo: eleva-o a uma forma de oração mais alta. A esse grau mais alto chama-lhe a Santa oração de quietude. À actividade transbordante do entendimento, segue-se um recolhimento de todas as potências da alma. A alma já não é capaz de fazer grandes considerações intelectuais e decidir resoluções concretas; vê-se inundada por algo, que se lhe deita em cima sem poder resistir-lhe; é a presença divina que lhe dá sombra e repouso.

Enquanto que os primeiros graus da oração os pode escalar qualquer crente com esforço humano, ainda que, está claro, ajudado sempre pela graça divina, aqui encontramos as fronteiras da vida mística da graça, que não se podem atravessar com a força humana, porque é só a força divina que nos arrasta para ela. E se a evidência da divina presença concentra totalmente a alma e a faz transbordar de incomparáveis alegrias humanas, a união com Deus ultrapassa de maneira inaudita essas alegrias, que aqui se lhe concedem, ainda que como centelhas fugazes. Neste grau de graças místicas acumulam-se variedade de experiências, que ainda exteriormente se podem apreciar como extraordinárias: êxtases e visões.

As potências interiores da alma sentem-se de tal forma cobertas por actuações sobrenaturais, que as suas potências exteriores, os sentidos, se vêem atrofiados: nem vê, nem ouve, o corpo é incapaz de sentir a dor, e está por vezes rígido como um cadáver. Pelo contrário, a alma, aliviada do corpo, abunda de actividade: vê já o Senhor em imagem corpórea, a Mãe de Deus, os anjos, os santos. Contempla esses corpos celestiais como se os visse com os seus próprios olhos. Ou então o entendimento vê-se iluminado por uma luz sobrenatural que lhe permite contemplar verdades ocultas.

Estas revelações pessoais têm geralmente o fim de instruir a alma sobre o seu próprio estado, ou sobre o estado de outras almas; de familiarizar a alma com os segredos divinos e preparar a alma para uma determinada missão, que o Senhor lhe tem preparada. Nunca faltam na vida dos santos, ainda que não seja o essencial da sua santidade. A maioria das vezes aparecem num determinado estado para novamente desaparecer.

As almas que o Senhor preparou e provou por meio de frequentes uniões temporais, revelações extraordinárias, sofrimentos e tentações de toda a espécie, quer uni-las consigo. Estabelece com elas uma aliança, que se chama desposório místico. Espera dessas almas que se dediquem completamente ao seu serviço; preocupa–se com elas e está sempre disposto a atender as suas petições.

Finalmente, Teresa chama matrimónio místico ao grau mais alto da graça divina. Cessam as manifestações extraordinárias, mas a alma está sempre unida com o Senhor; goza da sua presença mesmo no meio das actividades exteriores, que em nada lhe impedem a união».

 

II. A alma de cada homem…

 

«A alma de cada homem é um templo de Deus: isto abre-nos horizontes totalmente novos. A oração de Jesus é a chave para entender a oração da Igreja.

Já vimos como Cristo participou no culto público e prescrito do seu povo (quer dizer, no que chamamos “liturgia”); uniu-o do modo mais íntimo à sua própria entrega e deu-lhe assim o seu pleno e autêntico sentido: o da acção de graças da criação ao Criador; e deste modo transformou a liturgia do Antigo Testamento na do Novo.

Mas Jesus não participou apenas no culto oficial. Os Evangelhos contam-nos que ele, talvez com mais frequência, orava solitário, no silêncio da noite, no cimo do monte ou no deserto afastado dos homens. A sua vida pública foi precedida por quarenta dias e quarenta noites de oração (Mt 4, 1-2). Antes de eleger e de enviar os doze apóstolos retirou-se para a solidão de um monte a fim de orar (Lc 6, 12).

No Monte das Oliveiras preparou-se para subir o Gólgota. O que orou ao Pai, nessa hora mais dura de sua vida, é-nos dado em poucas palavras, palavras que nos foram dadas como estrelas que nos guiam nas nossas horas de Getsémani: “Pai, se é possível passe de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade mas a tua” (Lc 22, 42). Essas palavras são como um relâmpago que momentaneamente nos deixam entrever a vida íntima de Jesus, o mistério insondável do seu ser humano e divino e do seu diálogo com o Pai. Sem dúvida alguma, esse diálogo nunca foi interrompido durante a sua vida.

Cristo orava intimamente, não só quando se afastava da multidão, mas também quando se encontrava no meio dos homens. E uma vez permitiu-nos olhar longa e profundamente o segredo desse íntimo diálogo. Foi pouco antes da hora do Getsémani, imediatamente antes de partir para ali: ao acabar a última ceia, na qual reconhecemos o momento do nascimento da Igreja: “Ele que amou os seusamou-os até ao fim” (Jo 13, 1).

Sabia que era a última reunião, e quis dar-lhes tudo quanto podia. Tinha que conter-se para não dizer mais, pois sabia que não o compreenderiam, que não poderiam compreender nem sequer o pouco que tinham recebido. Teria que vir o Espírito da Verdade para lhes abrir os olhos. E depois de lhes ter dito e feito tudo o que devia, levantou os olhos ao céu e falou na presença deles com o Pai (Jo 17). A essa oração chamamos oração sacerdotal de Jesus.

Também esta oração solitária tinha uma prefiguração na Antiga Aliança. Uma vez por ano, no dia mais santo e solene do ano, o dia da Reconciliação, o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos, na presença do Senhor, “para orar por si mesmo, por sua casa e por todo povo de Israel” (Lv 16, 17), para aspergir o trono da graça com o sangue do cordeiro e do cabrito sacrificado, purificando assim o santuário dos seus próprios pecados e dos da sua casa e “das impurezas dos filhos de Israel, de suas transgressões e de todos os seus pecados” (Lv 16, 16).

Ninguém devia estar na Tenda (isto é, no Santo, a parte anterior ao Santo dos Santos), quando o sumo sacerdote entrava nesse sublime e tremendo lugar da presença de Deus, ao qual ninguém tinha acesso senão ele, e ele próprio somente nesse momento; e nessa ocasião tinha de levar consigo incenso “para que a nuvem de incenso cubra o propiciatório e não morra” (Lv 16, 13). Este encontro solitário realizava-se no mais profundo segredo».

(“A oração da Igreja”)

* Santa Teresa Benedita da Cruz
Imagem de Himsan por Pixabay