Domingo XXI | Entrar pela porta estreita da salvação

Pe. Georgino Rocha

“Senhor, são poucos os que se salvam?” – pergunta alguém a Jesus que, a caminho de Jerusalém, anunciava a todos a largueza do reino de Deus em aldeias e  cidades. Pergunta que brota do mais íntimo do coração humano e que sempre, de forma velada ou clara, vem à consciência e se faz ouvir em público. Pergunta que antecipa o futuro dando um novo sentido ao presente. Pergunta que parece ficar sem resposta, mas não.

Jesus, em vez do número que a pergunta pede, prefere indicar o caminho para alcançar a salvação. “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”, diz como ressonância, segundo a versão de Lucas 13, 22-30. E lembra que muitos tentaram entrar e não o conseguiram. (trata-se de um banquete, símbolo da salvação, que se celebra numa casa de família). O fracasso da tentativa é devido à porta estar fechada por decisão do dono.

“Se é certo que a porta da salvação requer um esforço, ela carece também de algo mais. De facto, tem um senhorio que a pode abrir e fechar. Para entrar, é preciso conhecer  o senhorio, ter intimidade com ele, uma boa relação com ele.    A salvação é uma questão de relação. Relação que começa, aqui e agora, com o Senhor Jesus e que espera tornar-se comunhão com Ele para sempre. O esforço pedido ao crente também é, então, a salutar inquietação de quem não toma a salvação por garantida pela presença eclesial ou pela assiduidade aos sacramentos (comer e beber na presença do Senhor pode também aludir à eucaristia”). Manicardi.

Quem está dentro? Uma multidão incontável vinda de todos os povos. E fora? Um grupo que conhece o Senhor e pretende entrar de qualquer maneira, e expor as suas razões que são de proximidade e familiaridade com Ele, como a convivência no comer  e no beber, na escuta dos discursos na praça pública. “Repito que não sei donde sois”. Que resposta desoladora! Que advertência tremenda! Que aviso solene deixado a todos os que pôem a sua garantia em “dar nas vistas” e se esquecem do resto, da relação com o Senhor, da oração e de tantos outros meios da vida interior, que tem muitas outras facetas. Sirva de referência o que se segue.

A coerência entre o que se ouve e diz e o que se faz; entre o que se convive em festas alegres e amigas e a distância de sentimentos e critérios de vida; entre a presença vistosa, provocadora e hipócrita, em praças públicas e as atitudes honestas, fruto da verdade e do bem; entre os comportamentos sociais, fingidos e corruptos, e o testemunho honrado e corajoso, ainda que incompreendido e desvirtuado; entre as situações discriminatórias e humilhantes e os laços fraternos das pessoas entre si e as relações filiais com o Deus de todos. Esta coerência vivida é expressão do reino anunciado por Jesus e tão belamente visualizado na porta estreita da salvação, na novidade do Evangelho.

O Reino é para todos, mas não há entrada garantida, nem bilhetes reservados.As medidas da porta de acesso estão traçadas. Só entra quem “se libertar de todas as gorduras” e viver a sobriedade evangélica. Por isso, Jesus exorta, com insistência, a entrar pela “porta estreita” a fim de poder sentar-se à mesa da felicidade onde todos são comensais e saboreiam os “manjares” do seu Senhor.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay