Ciência e religião: como superar o equívoco do conflito

Ciência e religião: como superar o equívoco do conflito

Luís Manuel Pereira da Silva

Deus não existe: como o mais célebre filósofo ateu mudou de convicção.

Antony Flew

Alêtheia | 2010 | 187 páginas

A relevância deste livro só se capta se, em primeiro lugar, se tiver em conta quem é o seu autor. Antony Flew foi, durante cinquenta anos, um dos mais relevantes defensores do ateísmo, no contexto britânico. Ateísmo que se sustentava na presunção de que a ciência tinha a última palavra sobre a verdade e o conhecimento, reduzindo a inverdade todas as outras linguagens, e especialmente o discurso religioso. A tarefa científica – defendia Flew – parecia exigir a inexistência de Deus.

Até que Flew se dá conta de que esse pressuposto é, não só impossível de provar, como está, na realidade, errado. Fazer ciência é, afinal, pressupor – conclui Antony Flew a partir de 2004, e repercute isso neste livro – que Deus tenha de existir.

A tese que ele defende é simples e clara.

Fazer ciência é pressupor existência de inteligibilidade no universo. Aliás, pressupor o contrário era impossibilitar a realização da tarefa do cientista que é, afinal, identificar regularidades e formular hipóteses de leis que as experiências se encarregarão de falsificabilizar até que nova teoria supere a vigente. De qualquer modo, a base é sempre a mesma: há possibilidade de compreender o universo, de o ler com inteligência, porque nele há inteligibilidade.

Ora, esta inteligibilidade só pode dever-se a duas ordens de motivos. Ou se chegou à inteligibilidade por vir de biliões de acasos ou teremos de pressupor que, por causa da sua origem se encontrar em Algo ou Alguém Inteligente que confere potência de inteligibilidade à sua obra, a mesma obra criada revela as marcas dessa origem.

Face a estas duas possibilidades, Flew defende que deve aplicar-se o critério epistemológico designado como «navalha de Ockham», segundo o qual quando se tem uma explicação mais simples para uma hipótese, então essa deve ser a escolhida. Diz Flew que pressupor biliões de acasos, todos eles concatenados como se fossem portadores de sentido é uma tese altamente complexa e improvável, sendo, assim, de se escolher a outra, que pressupõe que a inteligência que o Universo apresenta é, afinal, um pálido reflexo da sua origem.

A esta luz, pressupor a existência de Deus é, para Flew, muito mais do que um ato de fé: é uma espécie de axioma necessário para admitir que se possa fazer ciência.

De 2004 até à sua morte, em 2010, Flew dedicou a sua obra à revisão dos pressupostos de tudo o que dissera até então, para concluir que «é simplesmente inconcebível que uma matriz material possa gerar agentes que pensam e agem» (p. 155).

Esta é uma obra de que deveriam resultar debates capazes de refazer pontes que o tempo foi abalando. O pensamento de Flew deveria suscitar maior humildade, quer entre os crentes que pretendem defender que a conciliação entre ciência e fé se faz na base de um concordismo em que se procura que cada afirmação científica confirma afirmações retiradas dos livros sagrados (desrespeitando a natureza dos próprios textos sagrados), quer entre os que ainda, à maneira do positivismo do século XIX, pretendem esgotar a verdade do conhecimento no princípio da verificação, como se só a verdade das ciências exatas e experimentais pudesse ser credível. O que há de mais importante para o humano é insuscetível de verificações dessa ordem. A essa humildade obriga este livro de Antony Flew.

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