Como entender o mal se Deus é bom?

A possível teodiceia…

Luís Manuel Pereira da Silva

Recuperar a salvação: Por uma interpretação libertadora da experiência humana. 

Andrés Torres Queiruga

Paulus |1999 | 225 páginas

O problema da teodiceia – a discussão sobre como pode Deus ser Bom e ser o Bem e existir o mal – é, muito provavelmente, dos mais decisivos motivos para o ateísmo que se sustenta em razões. E muitas têm sido, ao longo dos tempos, as tentativas de resolver este aparente paradoxo. Já lá vão 15 anos que, pela mão de um amigo, contactei com a obra deste teólogo espanhol que, como poucos, continua a confrontar-se com as questões que, realmente, importam. E esta é, seguramente, uma das mais decisivas. Nesta obra, Queiruga encontra uma vida de solução que respeita, por um lado, a omnipotência de Deus, mas também a autonomia da criação, assim como supera, de forma genial, uma aparente dicotomia entre o processo criacional e o processo salvífico. Em muita teologia, estes parecem ser dois processos distintos e sem conexão senão a que resulta de o primeiro parecer ter sido gorado. Na realidade, a tese de Queiruga é a de que o próprio processo criacional é, já em si, processo salvífico, na mesma medida em que a salvação é processo de nova criação, da parte de Deus.

E como pode explicar-se que o ato criador seja, já por si, ato de salvação?

A resposta de Queiruga tem algumas marcas do pensamento de Leibniz, ainda que sem o formalismo daquele.

Para Queiruga, a Deus, que cria, só restam duas possibilidades quanto à decisão de criar: sabendo que toda a criatura é finita, e que a esta finitude que não há como esquecer se deve o limite, o mal, (numa alusão à ideia agostiniana de mal, entendido como insuficiência de bem), Deus «tem» de decidir entre não criar, pois criará sempre seres finitos ou criar, mesmo sabendo desse limite. Deus escolhe não desistir da criatura, dando-lhe oportunidade de existir, pois, de outro modo, o que restaria era não existir. Assim, ao criar, Deus está a retirar do nada o que nada era; está a salvar da anulação, depositando no ser o que, de outro modo, nunca seria. Neste quadro, criar é, de facto, salvar. O processo de criação é, todo ele, processo de salvação que atinge, no acontecimento Crístico, o máximo da sua expressão. Cristo é, assim, não apenas o corolário da salvação, mas igualmente o corolário da criação. Efetivamente!

Esta é uma obra que ‘desaquieta’, que desafia a restituir a certeza em que Deus não só não abandonou a sua criação, como, pelo contrário, ao decidir conferir-lhe existência está, deste modo, a realizar um ato de confiança na própria criatura.

Existir é a maior expressão da bondade infinita de Deus que decide salvar do nada o que, de outro modo, nada seria.

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