Carta Pastoral ‘O sentido cristão do sofrimento humano’ | D. António Moiteiro

Carta Pastoral ‘O sentido cristão do sofrimento humano’ | D. António Moiteiro

16 Março, 2019 Não Por admin_cult

 

«Não te deixes vencer pelo mal (sofrimento),
mas vence o mal com o bem (Jesus ressuscitado)» (Rm 12, 21)

Dedico esta meditação pessoal
à memória do meu pai e a todos os que sofrem.

__________________________________

ÍNDICE

O SENTIDO CRISTÃO DO SOFRIMENTO HUMANO
O mistério do sofrimento
O sofrimento tem muitos rostos

I. O SOFRIMENTO NA SAGRADA ESCRITURA

II. A NOVIDADE DE JESUS NO CONTEXTO DA DOR E SOFRIMENTO
O mistério do sofrimento em Cristo
Jesus ensina a amar a cruz
Jesus, plenitude da compaixão

III. OS CRISTÃOS PERANTE O SOFRIMENTO
Como respondem os cristãos ao sofrimento
O sofrimento, um desafio à comunhão e à solidariedade

IV. A IGREJA RESPONDE AO SOFRIMENTO COM A ALEGRIA DO EVANGELHO

Oração

 

__________________________________

 

O SENTIDO CRISTÃO DO SOFRIMENTO HUMANO

               

O mistério do sofrimento

Na condição de criatura, que traz em si algo do Criador, o homem busca ser feliz; mas a felicidade, por vezes, escapa-lhe. Esta contradição de ser criado para a felicidade, por um lado, e condenado ao sofrimento, por outro, suscita questões e respostas inquietantes, que merecem uma reflexão.

Somos confrontados, continuamente, com questões que nos atingem em todas as dimensões da vida humana, e a dor e o sofrimento são uma delas. Porquê o sofrimento? Que sentido têm o sofrimento e a dor que acompanham a vida do ser humano? Qual a posição de Deus face ao sofrimento humano? São questões com que frequentemente nos confrontamos. E, quando não se consegue ver sentido para o sofrimento, questiona-se Deus, e muitas vezes desanima-se e abandona-se a fé.

O que é, afinal, o sofrimento? A questão mais difícil de compreender é certamente a causa do sofrimento humano que, em certos casos, é levado e vivido ao extremo e, em outros, tido como injusto ou incompreensível. É difícil compreender a doença incurável, a incapacitação física, uma pessoa com alzheimer ou parkinson, a perda de um ente querido, as catástrofes, as esperanças frustradas, a solidão… Apesar da aversão que todos lhe têm, o sofrimento faz parte da condição humana, sujeita à dor e à morte; faz parte do mistério do homem. O homem no seu sofrimento permanece um mistério intangível; somos mistério até para nós mesmos. E carregamos a solução de muitos dos problemas e nem sempre temos consciência disso. No fundo de cada sofrimento experimentado, aparece inevitavelmente a pergunta: porquê? E, humanamente, agudiza-se ainda mais, se não encontra uma resposta satisfatória. Com efeito, o homem não coloca as suas questões ao mundo, ainda que muitas vezes o sofrimento provenha do mundo, mas põe-nas a Deus, como Criador e Senhor do mundo. Se Deus fosse compreendido como um justiceiro maléfico que castiga as suas criaturas, seria mais fácil entender o sofrimento. Seria consequência do castigo e da ira de Deus. Não pode, efetivamente, ser um castigo de Deus, porque Deus é amor.

Prevalece a impressão de que não estamos devidamente preparados para o encontro vital com o sofrimento. O sofrimento humaniza-se no seio da vida de cada um de nós. Deus é ainda o sempre estranho a este mundo que dizemos humano. Num mundo que não consegue ver no sofrimento senão um mal e um absurdo sem qualquer integração na vida, este não é a palavra definitiva, mas uma via que se abre para que Deus aja em nós e no mundo por meio da dor e sofrimento. Muitas pessoas se questionam acerca do sentido da sua vida e certamente não encontram sentido para o sofrimento porque também ainda não encontraram uma resposta convincente à pergunta: como viver? E talvez não encontrem resposta porque, em vez de se deixarem transformar, se conformam com este mundo. É na vivência da autenticidade do que somos que resplandece a autenticidade de Deus com toda a sua magnificência. Estará Deus assim tão longe de nós?!

O sofrimento tem muitos rostos

A dor física custa a suportar, mas não menos atroz é o sofrimento espiritual. Quantas pessoas sofrem sem terem dor física: pais que perdem um filho, pessoas surpreendidas por uma doença incurável, idosos deixados na solidão, jovens que não conseguem emprego, famílias que foram obrigadas a deixar as sua casas, pessoas que sobrevivem apenas com o salário mínimo… E há lamentações que ninguém ouve. É o silêncio da dor, o mesmo silêncio que rasgou o véu do Templo, quando da cruz se ouviu: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). São João Paulo II na sua carta apostólica sobre o Sentido Cristão do Sofrimento sublinha que o “sofrimento é algo mais amplo e mais complexo do que a doença”. Lembra que a ciência e as suas terapias não conseguem compreender e tratar todas as dores, que formam uma dimensão “enraizada na própria humanidade”. Alerta que a dor espiritual acompanha sempre os problemas físicos e morais: “A amplidão do sofrimento moral e a multiplicidade das suas formas não são menores do que as do sofrimento físico; mas, ao mesmo tempo, o primeiro apresenta-se como algo mais difícil de identificar e de ser atingido pela terapia”(SD 5).

No fundo de cada experiência de sofrimento surge a pergunta: porquê eu? Será que Deus escuta as minhas orações? As palavras de Cristo «Pai, se é possível afasta de mim este cálice!» atestam a verdade humana deste sofrimento. Sofrer é inerente à condição terrena do homem, mas é importante compreender que o projeto de Deus para o homem não é um projeto de morte, mas um projeto de vida verdadeira, de felicidade sem fim. É no sofrimento que o homem toma conhecimento do que Deus é e do que ele próprio é chamado a ser.

Se o sofrimento para uns provoca abandono da fé, pela dor incompreensível causada pela sensação de abandono e desespero, também há sinais evidentes de que persistem nos corações humanos anseios pela comunhão com o mistério divino. Muitas vezes, Jesus entra na vida das pessoas pela porta da fragilidade e da sensibilidade. Jesus ao receber a notícia de que o seu amigo Lázaro estava doente, respondeu com serenidade «Esta doença não é de morte» (Jo 11,4). E Lázaro morreu. Isto significa que os sofrimentos que nos atingem a nós ou aos que amamos não são doenças mortais, mas para que se manifeste a glória de Deus. Jesus deixa morrer o seu amigo para poder trazê-lo à vida. «Os sofrimentos do tempo presente nada são em comparação com a glória que há de revelar-se em nós» (Rm 8,18). Se sofrermos com Ele, também com Ele seremos glorificados.

Todo o sofrimento nos interpela. Que resposta lhe damos? Por vezes, a reação espontânea é a revolta, a angústia, a tristeza e o desânimo. Há corações que ficam perdidos diante dos sofrimentos, quando Deus lhos envia como asas para voar. Mais do que um problema, os sofrimentos são sobretudo uma oportunidade, para se ter confiança filial em Deus, que é amor.

I. O SOFRIMENTO NA SAGRADA ESCRITURA

A Palavra de Deus faz-nos mergulhar no mistério de Deus, no mistério da vida, da história e de nós mesmos. A nossa finitude, as nossas limitações, os nossos medos e misérias não são a última palavra da nossa existência.

Na Sagrada Escritura encontramos um vasto elenco de situações dolorosas: o perigo de morte; a morte dos próprios filhos e especialmente a morte do filho primogénito e único; a falta de descendência; a saudade da pátria; a perseguição e a hostilidade do meio ambiente; o escárnio em relação a quem sofre; a solidão e o abandono; os remorsos de consciência; a dificuldade em compreender a razão por que os maus prosperam e os justos sofrem; a infidelidade e a ingratidão da parte dos amigos e vizinhos; as desventuras da própria nação…

O sofrimento não estava nos planos de Deus criador. No Antigo Testamento, o sofrimento é conotado com o mal; é visto como fruto do pecado e como castigo de Deus pelo bem não realizado. As consequências do pecado são devastadoras: inveja, sofrimento, dor, penas, tristeza, corrupção, cegueira, frialdade de coração…

No livro do Génesis, a narração da primeira queda indica os fatores constitutivos da culpabilidade originada pelo pecado. Acentua-se o surgir do mal no ser humano e o sofrimento como consequência do incumprimento da lei. Adão e Eva foram expulsos do paraíso por causa da sua desobediência à ordem divina (Gn 3,16-22); Caim foi amaldiçoado por ter assassinado o seu irmão Abel (Gn 4,11-15); Sodoma foi destruída por causa da sua iniquidade (Gn 18,22-25). O sofrimento é, pois, a indicação clara e explícita das opções erradas que se fazem e constitui uma ocasião para que se reconheça o mau proceder.

No Novo Testamento, o sofrimento não se identifica diretamente com o mal, mas aquele que o sente expressa o sofrimento. Diante da presença de um cego de nascença, os discípulos de Jesus perguntaram: «Senhor, quem pecou, ele ou os seus pais?» E Jesus respondeu: «Nem ele nem os seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que nele se manifestem as obras de Deus» (Jo 9,3).

São incontáveis as histórias de homens e de mulheres que, provados pelo sofrimento, adquiriram uma nova visão da vida e perceberam que o que vale a pena de verdade na vida é Deus, que nunca está alheio ao sofrimento, ainda que por vezes assim pareça; descobriram que em Deus se encontra o verdadeiro amor pelo qual todos ansiamos e que nada nem ninguém conseguem satisfazer; entenderam que o que importa são os tesouros no Céu, que nem a traça e a ferrugem corroem nem os ladrões arrombam nem furtam (cf. Mt 6,20); e perceberam que os outros também sofrem, e por isso decidiram esquecer-se de si mesmos e dedicar-se a aliviá-los e ajudá-los a bem sofrer. É no momento em que constata a sua finitude e a sua fragilidade que a pessoa se descobre claramente.

Num mundo que presta tão pouca atenção ao sofrimento, à dor, ao fracasso; que tem medo de pensar na morte; que se confronta com o sofrimento, com a doença, com a decadência física… as palavras de Job, homem justo e piedoso, que possuía muitos bens e uma família numerosa e, de repente, se viu privado de todos os seus bens, perdeu a família e foi atingido por uma doença grave, convidam-nos a enfrentar a realidade numa atitude de aceitação, e ao mesmo tempo numa atitude contemplativa. Os gritos de Job mostram que a justiça de Deus, às vezes, envereda por caminhos incompreensíveis. Com amargura e desilusão, lamenta a sua condição de sofredor e de Deus parecer ausente e indiferente face ao desespero em que vive, mas, apesar disso, é a Deus que se dirige, pois sabe que Deus é a sua única esperança e que fora dele não há possibilidade de salvação. «Não vive o homem sobre a terra como um soldado? Não são os seus dias como os de um mercenário? E o trabalhador que espera pelo seu salário, e couberam-me em sorte noites de amargura. Se me deito, digo: ‘Quando é que me levanto?’ Se me levanto: ‘Quando chegará a noite?’… Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear e desvanecem-se sem esperança. Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade» (Job 7, 1-7). As palavras de Job não são palavras de desespero, mas uma reflexão realista sobre o mistério da vida humana, uma reflexão cheia de esperança, porque feita à luz de Deus. Job percebeu o sentido e o valor do sofrimento e como Deus, mesmo em silêncio, se mantivera atento. No silêncio de Deus está a nossa oportunidade do encontro com Ele. Uma coisa é pensar nas realidades negativas da nossa existência contando apenas com as nossas forças, outra é encarar a vida também com as suas trevas, à luz do amor de Deus. Para Job o sofrimento tornou-se caminho de encontro profundo com Deus. Onde Deus é silêncio torna-se necessária a fé. São muitos os que apesar do sofrimento têm sempre um sorriso nos lábios, com palavras de alento para os outros: “Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora veem-te os meus próprios olhos” (Job 42, 5).

Na vida de São Paulo, as tribulações também eram muitas, mas nunca o abateram porque não as via como um obstáculo, mas como graças de Deus e garantia de fecundidade: «Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo» (2Cor 4,10). E ainda: «Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte» (2Cor 12,10). E até mesmo, com entusiasmo: «Gloriamo-nos também das tribulações, sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência a firmeza, e a firmeza a esperança. Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,3-5). É a imagem perfeita do ser humano que se engrandece no sofrimento, que se deixa abençoar pela Cruz. São Paulo, escrevendo aos cristãos de Éfeso (Ef 1,17-23), quer que eles compreendam a esperança a que foram chamados. O fundamento está na poderosa força que Deus exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou acima de tudo, como cabeça de toda a Igreja que é o seu Corpo, a plenitude daquele que preenche tudo em todos.

O sofrimento não é um apêndice do Evangelho, mas página central, sempre aberta diante de nós. Há situações que não entendemos, mas sabemos, pela fé, que Deus é Pai, que Deus é amor (1Jo 4,8) e, portanto, como diz São Paulo, nós sabemos que Deus faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que o amam (Rm 8,28). O sofrimento e a dor… é preciso preveni-los, possível aceitá-los e sublime saber oferecê-los.

II. A NOVIDADE DE JESUS NO CONTEXTO DA DOR E SOFRIMENTO

O mistério do sofrimento em Cristo

Como olhar o sofrimento redentor de Jesus Cristo, levado ao extremo do escárnio e humilhação, perante o Pai, um Deus de amor?

A vida do homem atinge a sua plenitude por Cristo e em Cristo. Cristo introduz-nos no mistério e ajuda-nos a descobrir o ‘porquê’ do sofrimento, na medida em que nós formos capazes de compreender a sublimidade do amor divino. Deus, ao enviar o Seu Filho ao mundo para libertar o homem do mal, traz em Si a definitiva e absoluta perspetiva do sofrimento e do amor salvífico. «O sofrimento humano atingiu o seu vértice na paixão de Cristo; e, ao mesmo tempo, revestiu-se de uma dimensão completamente nova e entrou numa ordem nova: ele foi associado ao amor, àquele amor de que Cristo falava a Nicodemos, àquele amor que cria o bem, tirando-o mesmo do mal, tirando-o por meio do sofrimento, tal como o bem supremo da Redenção do mundo foi tirado da cruz de Cristo e nela encontra perenemente o seu princípio» (SD 18). Pela paixão de Cristo na cruz, o Salvador realizou a redenção da humanidade.

De Jesus recebemos extraordinárias lições de sofrimento. Também Ele experimentou o sofrimento da solidão, da perseguição, da crucifixão, o abandono dos discípulos e até o aparente abandono do Pai quando, citando um salmo, rezou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 21). Cristo vive profundamente a experiência do abandono… Dá um grito de abandono, mas não de desespero. Neste clamor de Jesus estavam condensados todos os sentimentos dos corações humanos, que experimentam o silêncio aparente de Deus… Diz-nos o Papa Francisco: “Sem cruz nunca encontrareis o verdadeiro Jesus; e uma Cruz sem Jesus não tem sentido”. Deus manifesta preocupação com a felicidade dos seus filhos. Ele salva e redime a quem está prostrado, a quem vive desanimado, a quem não consegue encontrar caminho e sentido para a sua vida. Deus encontra-se não na sua omnipotência, mas na sua debilidade.

A Redenção realizou-se mediante a cruz de Cristo, ou seja, pelo seu sofrimento. Cristo aproximou-se do mundo do sofrimento humano, assumindo Ele próprio este sofrimento. «Ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores (…), foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre Ele, fomos curados pelas suas chagas» (Is 53,4-5). Cada um de nós foi englobado no mistério da redenção e Cristo uniu-se com cada um para sempre, através deste mistério. Graças ao valor redentor e purificador da Cruz de Cristo, a dor e o sofrimento converteram-se num grande valor de purificação, expiação e redenção.

Em Cristo encontra-se a verdadeira vida do mundo. São Paulo expressa: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada? Mas em tudo isto somos vencedores, graças Àquele que nos amou» (Rom 8,35-37). Na ação libertadora de Jesus em favor dos homens começa a manifestar-se um mundo novo sem sofrimento, sem opressão, sem exclusão – o mundo que Deus sonhou para o ser humano. A este propósito, a carta apostólica Salvifici Doloris, de São João Paulo II, dá-nos luzes para, pela fé, não só compreendermos o nosso sofrimento, como o da humanidade, unindo o nosso sofrimento ao corpo da Igreja, que é Corpo de Cristo, completando o valor salvífico da Paixão e Ressurreição do Senhor. «Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível da Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, podem tornar-se participantes do sofrimento redentor de Cristo» (SD 19). Na medida em que o homem se torna participante dos sofrimentos de Cristo, tanto mais ele completa, a seu modo, aquele sofrimento mediante o qual Cristo operou a Redenção do mundo. «Se com ele sofremos, com ele reinaremos», como diz São Paulo (2Tm 2,12).

Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar connosco este caminho e oferecer-nos o seu olhar para nele vermos a luz. Cristo é aquele que, tendo suportado a dor, se tornou “autor e consumador da fé” (Heb 12,2). «À medida que o homem toma a sua cruz, unindo-se espiritualmente à Cruz de Cristo, vai-se-lhe manifestando mais o sentido salvífico do sofrimento. O homem não descobre este sentido ao seu nível humano, mas ao nível do sofrimento de Cristo. Ao mesmo tempo, porém, deste plano em que Cristo se situa, este sentido salvífico do sofrimento desce ao nível do homem e torna-se, de algum modo, a sua resposta pessoal. E é então que o homem encontra no seu sofrimento a paz interior e mesmo a alegria espiritual» (SD 26). Esta descoberta constitui uma confirmação particular da grandeza espiritual que, no homem, supera o corpo de uma maneira totalmente incomparável: Agora o combate, depois a vitória; agora as duras lutas da vida, sustentando o nome de Jesus, depois, a palma da vitória, a graça de ser eternamente abrigado na tenda do coração do Pai e aí, consolados pelo Espírito que Jesus nos deu e que nos glorificará para sempre, nunca mais ter fome ou sede, nunca mais chorar, nunca mais sentir o calor ardente! É esta força, a força da ressurreição, que proporciona o vigor necessário para lidar com o sofrimento.

A ressurreição de Jesus marca a vitória definitiva sobre a dor e a morte e abre caminho à ressurreição de toda a humanidade. Falta ainda que a ressurreição de Jesus transforme o olhar que os homens projetam à sua própria vida. «Ele morreu por todos a fim de que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou» (Cor 5,15). «Falar da fé comporta frequentemente falar também de provas dolorosas, mas é precisamente nelas que São Paulo vê o anúncio mais convincente do Evangelho, porque é na fraqueza e no sofrimento que sobressai e se descobre o poder de Deus que supera a nossa fraqueza e o nosso sofrimento» (LF 56). Não fiquemos, pois, à margem deste caminho de esperança viva. Nada entristece mais que viver sem sentido! «Cristo introduziu-nos neste reino pelo seu sofrimento. E é também mediante o sofrimento que amadurecem para ele os homens envolvidos pelo mistério da Redenção de Cristo» (SD 21).

A nossa alegria consiste na certeza de que a ressurreição não se restringe a Cristo, porque nele descobrimos que a vida humana é também chamada a participar na sua ressurreição. Sabemos que nele tudo se enche de novo sentido… por isso, o relacionamento com Ele permanece essencial; sem um diálogo permanente perde-se o amigo. Aquele que passou da morte à vida dá-nos a possibilidade de perseverar, sem perder o ardor da esperança.

Jesus ensina a amar a cruz

A resposta mais completa ao sentido e valor do sofrimento foi dada à humanidade por Deus, em Cristo. Jesus revela-nos um Deus que é Pai, mas que não impede o seu nem o nosso sofrimento. Jesus não só o venceu como lhe dá um novo sentido, assume a dor com a alegria interior de quem realiza na fidelidade a vontade do Pai. Este sentido não está dado à partida; é necessário descobri-lo.

O projeto trazido por Jesus Cristo é a libertação do homem, e para isso viveu e indicou o caminho da cruz. Também Ele foi interpelado, na cruz, por todo o tipo de sofrimento com que o feriram os nossos pecados. E como respondeu? Só é possível entender a cruz na dimensão do amor. As palavras da oração no Getsémani «Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice» (Mc 14,36) atestam a verdade do sofrimento e provam a verdade do amor que, com a sua obediência, o Filho demonstra para com o Pai. Este é o exemplo para o qual devemos olhar. Na cruz, junto de Jesus crucificado, o mau ladrão deixou-se arrastar pelo ódio à cruz. Pelo contrário, o bom ladrão soube descobrir na sua cruz uma escada que lhe serviu para chegar a Cristo e subir ao céu (cf. Lc 23,39-43).

A experiência da união com Cristo faz com que todos os sofrimentos possam ser penetrados pela mesma força de Deus que se manifestou na cruz. Mais do que debruçarmo-nos sobre o invólucro da dor, urge adentrar no mistério da cruz. Assim como Cristo nos salvou pela cruz, assim também nos aperfeiçoa e nos santifica por meio da cruz. O sofrimento faz-nos ascender para horizontes maiores; ajuda-nos a escalar os caminhos do amor a Deus e do amor ao próximo. Abraçar a cruz significa viver o mandamento novo, porque “ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).

Qual é a nossa atitude nos momentos de tristeza e solidão? Será que Deus realmente nos abandonou ou se esqueceu de nós? No decorrer da história tem-se comprovado que no sofrimento se esconde uma força peculiar que aproxima interiormente o homem a Cristo. Na hora da provação, a fé ilumina-nos; e é precisamente no sofrimento e na fraqueza que se torna claro como “não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor” (2Cor 4,5).

Os que se entregam nas mãos de Deus Pai sentem que a cruz é suave; escutam silenciosamente as palavras de Cristo que, na hora da dor, diz: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que eu hei de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11,28-30).

Aquele que confia em Deus não se deixa abater nem pelos sofrimentos, nem pelas angústias, nem pela morte; acredita que Ele não abandona nenhum ser humano. Tudo será restaurado em Cristo. Sabemos o quanto é difícil o luto pela perda dos que nos são queridos, mas não se pode estar preso a um passado que já não existe. A sua presença física já não é possível. «Para os que creem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma». Com efeito, «os nossos entes queridos não desapareceram nas trevas do nada: a esperança assegura-nos que eles estão nas mãos bondosas e vigorosas de Deus» (AL 256). Mas disto só o crente tem consciência, pelo que deve viver como testemunha desta verdade. Para aquele que crê e ama tudo se pode converter em sacramento de encontro com o Senhor, mas isto implica viver em atento acolhimento e procurar a sua presença em tudo, mesmo naquilo que faz sofrer. Embora com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem se dar por vencido, e recordar o que o Senhor disse a São Paulo: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza» (2Cor 12,9). «O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória» (EG 85). Jesus não permite que nos aconteça nada que não possamos suportar. «Tudo posso naquele que me conforta» (Flp 4,13). Tudo está em conformidade com as nossas forças.

A cruz é a presença incontestável do amor. Então é hora de perguntar a mim mesmo: como aceito eu o sofrimento? Que tipo de consolador(a) sou eu? Vivo na minha vida a bem-aventurança dos que choram “porque serão consolados” (Mt 5,4)? Ponho-me no lugar do outro para o compreender e lhe servir de bálsamo apaziguador da sua tristeza?

Jesus, a plenitude da compaixão

Na pessoa de Jesus Cristo a vontade de Deus aparece expressa no desejo de que as pessoas tenham vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10). Cristo não veio ao nosso encontro para nos fazer sofrer, mas sim dar um novo sentido ao sofrimento. Em toda a sua vida, Jesus identificou-se com aquelas pessoas cuja dignidade estava, por vezes, diminuída ou fragilizada. Ele, que se humilhou até à morte na cruz, coloca-se na condição do outro e atua em nome da reciprocidade: «O que quereis que os homens vos façam, fazei-lho vós primeiro» (cf. Mt 7,12). No seu tempo, a maioria dos doentes era abandonada à sua sorte. Segundo a mentalidade da época, a enfermidade devia-se ao terem sido abandonados por Deus e deviam ser também excluídos do convívio social e religioso. Os cegos, por exemplo, não podiam entrar no Templo de Jerusalém e por vezes também ficavam fora da cidade; os leprosos eram afastados de toda a convivência, não tanto por medo do contágio, mas principalmente por serem considerados ‘impuros’ e poderem transmitir essa ‘impureza’ aos que eram tidos como justos e fiéis cumpridores da lei (cf. Lv 13,45-46). Estes eram as pessoas mais marginalizadas pela sociedade. Jesus veio para mostrar que eles não foram abandonados por Deus, mas têm um lugar privilegiado no seu coração e assim se dedicou a curá-los.

A compaixão é alívio para qualquer doença física e espiritual. Jesus toma todos os que sofrem pela mão; tocava os doentes para expressar a sua proximidade e acolhimento – atitude que deixava a assistência umas vezes escandalizada, outras emocionada e cheia de esperança num mundo novo que começava a surgir. Tomou pela mão a sogra de Pedro, erguendo-a do leito. Com este gesto revela que está com todos os feridos e doentes por tantas doenças, insatisfações, fraquezas e medos. Este é o Evangelho, a boa notícia: em Jesus, Deus revela o sentido da nossa existência porque se revela como Deus próximo, Deus de compaixão. Também é sintomática a manifestação da compaixão de Jesus para com a viúva de Naim, que perdeu o seu único filho, a quem Jesus ressuscitou. «Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: Não chores» (Lc 7,13). Ao exortar os seus ouvintes a imitarem o Pai na maneira de ser misericordioso (cf. Lc 6,36), Jesus mostrou que o ser humano não fica abandonado a si mesmo.

Jesus mostra-nos, com exemplos e palavras, que servir os outros de forma altruísta é a maior revelação de amor de Deus, a melhor das terapias. Na comunhão com Cristo, a dor torna-se plena de significado, e todos nós podemos dizer como São Paulo: «Agora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja» (Cl 1,24). A vida vai além da nossa existência biológica. Onde não há motivo pelo qual vale a pena morrer, também não há motivo que faça valer a pena viver. Para isso Jesus veio ao mundo, para anunciar o Reino e expulsar tudo aquilo que acorrenta a nossa existência.

III. OS CRISTÃOS PERANTE O SOFRIMENTO

Pelo facto de sermos crentes, poderíamos ser levados a pensar que Deus nos pouparia a certos sofrimentos, porque somos seus filhos prediletos e procuramos observar a sua Lei, mas muitas vezes até parece ser o contrário. Quanto mais crente, mais Deus se sente à vontade para pedir sacrifícios.

O mundo de hoje tem muita dificuldade em aceitar o sofrimento, mas nem sempre o sofrimento e a dor são negativos. A mãe que espera um filho, depois da dor do parto sente uma alegria imensa. O desportista para vencer precisa de sofrer a exigência dos treinos. O mesmo acontece com todos os que querem vencer e chegar à glória. Tudo isto acontece porque a dor e o sofrimento abrem a porta à esperança.

«Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros» (EG 270). Aqueles que sobre a dor não têm nada mais a dizer, a não ser que se deve dominá-la, têm um caminho a percorrer. O sofrimento do outro é também o meu, é semelhante ao meu. As ofensas à humanidade são ofensas dirigidas a Deus. Os sinais dos tempos são também a linguagem de Deus, mas o seu discernimento exige silêncio interior, uma fé esclarecida e capacidade de interpretação dos acontecimentos à luz de Deus, à luz da fé, porque as respostas não estão à superfície, mas mais fundo. Quando não mergulhamos a fundo, à mais simples contrariedade, vem a revolta.

Todo o tipo de sofrimento pode ser uma excelente ocasião para crescermos interiormente e um singular apelo para uma mudança na forma de ser e estar na vida. Por vezes, passamos a valorizar aspetos que até então não dávamos importância e a desvalorizar outros que pareciam pertinentes. O sofrimento constitui também um chamamento a manifestar a grandeza moral do homem, a sua maturidade espiritual. Disto deram e continuam a dar prova os mártires. «Se alguém sofre por ser cristão, não se envergonhe, mas dê glória a Deus por este título» (cf. 1Ped 4,16).

No mundo, são muitos os que sentindo-se frágeis, abandonados, soltam gritos de desespero, mas também não faltam sinais de esperança. Na verdade, as lágrimas rolam e a dor consome quando tudo parece estar acabado e a pedra do túmulo fechada para sempre. Contudo, por vezes é necessário tempo para que a resposta comece a ser percebida interiormente. Tempo para que o grão de trigo lançado à terra comece a germinar (cf. Jo 12,24). Nesta situação estava Maria Madalena que foi ao sepulcro e não encontrou Jesus. «Mulher, porque choras?» Ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram» (Jo 20,13). Ela amava Jesus que tinha visto morrer crucificado, mas apenas acreditava naquilo que podia ver e experimentar. Acreditava firmemente na morte, na dor, no luto, na perda. Acreditava também nos perfumes… nas lembranças doces e amargas. Acreditava nos guardas postos como sentinelas para pôr fim à história do Nazareno. Acreditava, finalmente, na pedra que fechava a entrada do sepulcro.

A descrença de Madalena é a descrença de todo o ser humano. As lágrimas secam e o coração acalma-se somente quando se ouve a voz do Amado a chamar pelo nome: “Maria!” Jesus saiu ao seu encontro e disse: «Não temais. Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia; lá me verão» (Mt 28,10). Maria Madalena e as outras mulheres procuravam um cadáver e encontraram uma surpresa, isto é, um mensageiro que lhes revelou uma boa nova: Jesus de Nazaré, o crucificado, ressuscitou! Verdadeiramente experimentaram uma alegria inefável ao ver novamente o Senhor e, cheias de entusiasmo, correram para comunicar a notícia aos discípulos. Elas que tinham vindo para dar um final definitivo à história de Jesus, encontraram Aquele que inverte os seus projetos humanos e transforma em início o que elas pensavam ter sido o fim. A certeza da ressurreição não deve ser, apenas, uma realidade que esperamos, mas uma realidade que influencia, desde já, a nossa existência terrena. Também a Marta, que chorou a morte do irmão Lázaro, Jesus revelou que a verdadeira vida começava ‘a partir de agora’. É, pois, preciso que a ressurreição de Jesus transforme o olhar que os homens projetam à sua própria vida.

Como respondem os cristãos ao sofrimento

A experiência quotidiana dificilmente dá conta de Deus no sofrimento. Perante a realidade cruel da cruz, mesmo nós cristãos, ficamos desconcertados, mas por detrás das vicissitudes que nos afetam não atuam simplesmente a lei natural, a casualidade, a sorte ou a desgraça. O cristão sabe que o sofrimento não pode ser eliminado, mas pode adquirir um sentido: pode tornar-se entrega nas mãos de Deus, e deste modo ser uma etapa de crescimento na fé e no amor. «A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho» (LF 57). A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. A fé tem sempre de nos incomodar e nunca acomodar. Na hora da provação, a fé ilumina-nos. Os que sofrem foram, e continuam a ser, mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé. Assim, a fé, ao dar-nos a certeza do amor que Deus nos tem, dá-nos também uma grande esperança.

Como pode um cristão lidar com o sofrimento, mantendo-se firme na sua fé e no chamamento que recebeu? Jesus não prometeu uma vida sem dores, mas deu-nos a confiança que o nosso sofrimento, unido a Ele, será uma vitória: «Anunciei-vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo tereis tribulações; mas tende confiança: Eu já venci o mundo!» (Jo 16,33). Ser cristão é enfrentar a dor e o sofrimento na certeza de que a ressurreição chegará. «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho unigénito, a fim de que todo o que crê nele não se perca, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16). Só à luz da fé em Cristo, e sob a ação do Espírito Santo, podemos progredir na maturidade espiritual que nos configura interiormente com Jesus, de maneira que alcancemos a sabedoria e a sensibilidade para procurar e viver segundo o plano de Deus.

Como cristãos, temos de nos convencer que a vocação de sermos cristãos é exigente. Qual o santo que não sofreu? Há dores que precisam de ser enfrentadas, porque não existe anestesia para elas. «O mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente […] Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime» (GS 22).

Jesus afirma que há um «Reino preparado desde a criação do mundo» (Mt 25,34) para aqueles que amam o irmão que sofre. Diante da evidência que os cristãos também tinham de passar pela morte, São Paulo acalentava a esperança dos outros membros da comunidade com estas palavras: «Irmãos, não queremos deixar-vos na ignorância a respeito dos que faleceram, para não andardes tristes como os outros que não têm esperança. Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus reunirá com Jesus os que em Jesus adormeceram» (1Tes 4,13-18). Realidade desanimadora, pelo contrário, é não haver quem console. «Cristo ensinou o homem a fazer bem com o sofrimento e, ao mesmo tempo, a fazer bem a quem sofre» (SD 30).

Na vida, todos passamos provações e sofrimentos, umas vezes em consequência dos nossos próprios atos, outras, causadas por outros motivos. Nesses momentos precisamos de consolação. Da parte de Deus ela vem com certeza, pois consolar é atributo de Deus. «Como a mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei» (Is 66,13). Mas aliviar a dor ou o sofrimento moral e espiritual deve acontecer também da parte dos irmãos, como recomenda São Paulo: «Consolai-vos, pois, uns aos outros e edificai-vos reciprocamente» (1Tes 5,11). Confortar não significa apenas dar o que é material, ou simplesmente tentar fazer esquecer o motivo do desânimo, mas estar ao lado, tornando esses momentos mais amenos, revigorando-os na fé. «Assim, o dinamismo de fé, esperança e caridade (cf. 1Ts 1,3; 1Cor 13,13) faz-nos abraçar as preocupações de todos os homens, no nosso caminho rumo àquela cidade, ‘cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus’ (Heb 11,10), porque ‘a esperança não engana’(Rm 5,5)» (LF 57). Os santos, perante as adversidades mais extremas, não deixam de invocar Deus para que se possam ver livres delas, mas sobretudo para que se cumpra o desígnio amoroso de Deus. Por isso, não têm temor perante a dor, nem perante a morte, porque as adversidades da terra não podem senão uni-los ao corpo sofredor do Senhor. Seguir Jesus não é simplesmente imitá-lo, mas assumir existencialmente as suas condições de vida.

O sofrimento, um desafio à comunhão e à solidariedade

O sofrimento comporta um desafio à comunhão e à solidariedade. Diante de todo o sofrimento, e no combate ao mal que o causa, a solidariedade é a dinâmica indispensável para construir um caminho humanitariamente possível e justo. Perante a situação dos sofredores, mais do que agudizar a dor causada pelo sofrimento, é necessário enfrentar os problemas com serenidade, buscando saídas para as dificuldades, lembrados de que nunca estamos sós. Enquanto crentes, temos de compartilhar as perplexidades da vida, contrapor alternativas, contribuir para que, no meio de aparentes fracassos, demos conta de que Deus nos surpreende. «Trazemos este tesouro em vasos de barro» (2Cor 4,7). A ação de Jesus tem de ser continuada pelos seus discípulos, mas estes não se podem guiar por interesses pessoais, mas sim pelo amor a Deus e aos irmãos. O sofrimento está presente no mundo para desencadear o amor. O fruto da conversão é não apenas o facto de que o homem descobre o sentido salvífico do sofrimento, mas, sobretudo, que no sofrimento ele encontra como que uma maneira nova para avaliar toda a sua vida e a própria vocação.

É necessário fazer tudo para aliviar a dor e limitar o sofrimento, mas se a dor física se recupera com medicamentos, há outros sofrimentos que só são atenuados pela presença, pelo carinho que recebemos nos momentos de provação. Não bastam apenas cuidados paliativos, são urgentes os cuidados espirituais. Muitas vezes o sofrimento instala-se por falta de interiorização e reflexão sobre o sentido da vida pessoal. Chega até a existir um menosprezo por tudo o que tenha a ver com o cultivo do espírito. Diz-nos o Papa Francisco: “O homem deixado às suas forças não compreende as coisas do Espírito”. A resistência, na forma de preocupação, costuma impedir-nos de ver a verdade das nossas vidas, de ouvir a voz de Deus e de viver uma vida espiritual.

«A experiência pessoal de nos deixarmos acompanhar e curar, conseguindo exprimir com plena sinceridade a nossa vida a quem nos acompanha, ensina-nos a ser pacientes e compreensivos com os outros e habilita-nos a encontrar as formas para despertar neles a confiança, a abertura e a vontade de crescer» (EG 172). Quando as dores físicas ou morais, os desgostos, os fracassos, a solidão, a depressão… nos deprimem, Cristo crucificado convida-nos a crescer na mansidão, na paciência, na bondade e na grandeza de alma; a aumentar a confiança em Deus; a ser mais desprendidos de êxitos e bens materiais; sobretudo a deixar-nos abrasar pelo seu amor, a imitá-lo, unindo-nos assim ao seu sacrifício redentor.

Um grande capítulo do Evangelho do sofrimento escrevem-no todos aqueles que sofrem com Cristo. Partilhando as nossas alegrias e sofrimentos, Cristo identificou-se com os pequenos e com os pobres, aos quais anunciou a Boa Nova. No sermão da montanha, conforta todos os que o amam e unem o seu sofrimento ao sofrimento dele: «Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu» (Mt 5,1-10).

IV. A IGREJA RESPONDE AO SOFRIMENTO COM A ALEGRIA DO EVANGELHO

A Igreja sente ser seu dever estar próxima de todos os que sofrem. Não pode ficar indiferente nem ausente de nenhum ambiente da vida das pessoas. Ela é vista na viúva que chora e a quem o Senhor diz: Não chores! «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. E não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (GS 1).

Perante o sofrimento, a Igreja responde em conformidade com o Evangelho. Sentimo-nos envolvidos como destinatários e como participantes, convidados “a ter em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fil 2,5). A fé cristã supõe a atenção ao outro. «Os males do nosso mundo – e os da Igreja – não deveriam servir como desculpa para reduzir a nossa entrega e o nosso amor. Vejamo-los como desafio para crescer» (EG 84). O Samaritano aceita ver e ouvir a dor do outro, até fazer ressoar em si a voz do sofrimento do outro. Este é o modo de ouvir de Deus, e esta deve ser também a maneira de sentir da Igreja diante dos sofrimentos humanos.

A Igreja é chamada a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. «Há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações, e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 79). O cristão tem de compreender que o seu modo de estar na vida deve ser o discernimento: um discernimento cristão, que amadurece na reflexão, no compromisso ativo e na oração, e que deve ajudar a encontrar caminhos possíveis de resposta a Deus e de crescimento no meio das fragilidades.

Em tempos difíceis, de fortes contradições e grandes esperanças, urge apreender um novo impulso de humanidade, para não permitir que a mentira, a hipocrisia, a corrupção, a avidez do poder, a barbárie e a indiferença prevaleçam neste mundo que deveria ser de proximidade e de harmonia. Diante do sofrimento de tanta gente exaurida pela miséria, pela violência e pelas injustiças, não podemos permanecer indiferentes. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe a compaixão. Sabemos quanto «a credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo» (MV 10).

É o amor que nos permite vislumbrar e penetrar no mistério da pessoa – este é a base significativa para uma melhor qualidade de vida para todos. Mais ainda, temos de conhecer os verdadeiros fundamentos da nossa fé e esperança, e sobre eles construir os alicerces da nossa existência. Não sejamos como Caim, que pretende nada ter a ver com a morte de seu irmão Abel: «Serei eu guarda do meu irmão?» (Gn 4,9). O estarmos despertos para a felicidade própria e alheia comporta exigências de evangelização e um esforço de purificação, para que todo o tipo de sofrimento seja um verdadeiro caminho de acesso à experiência da proximidade e da beleza do rosto de Deus, revelado em Jesus Cristo. Só a partir de uma Igreja presente como fermento de esperança ativa no meio do mundo, onde se constrói o Reino de Deus, do qual cada comunidade cristã é sinal visível, comprometida na transformação da história, dando as mãos a todos os que vivem enfermidades, se pode transformar o sofrimento em alegrias. Uma Igreja «onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida feliz do Evangelho» (EG 114). Vendo que a multidão de pessoas que O seguia estava cansada e abatida, Jesus sentiu, no fundo do coração, uma intensa compaixão por tais pessoas (cf. Mt 9,36). Em virtude deste amor compassivo, curou os enfermos que Lhe foram apresentados (cf. Mt 14,14) e, com poucos pães e peixes, saciou grandes multidões (cf. Mt 15,37). Em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia, com a qual dava resposta às necessidades que tinham.

Há corações feridos que esperam por alguém que suavize as suas feridas. É urgente despertar e recuperar a dimensão da fé e do encontro com Cristo. Só um encontro pessoal com a Pessoa de Cristo crucificado, morto e ressuscitado traz a realização plena para as nossas vidas. Cristo não pode ficar na dimensão do conhecimento, sob pena de os olhos humanos se fecharem pela deceção e falta de esperança, quando as coisas não correm bem, quando a crença em Deus se defronta com a realidade do sofrimento e da morte. A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: «Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?» (Jo 11,40).

Quem anuncia a esperança de Jesus é portador de alegria e vê longe, porque sabe olhar para além dos problemas. Fortalecidos pela esperança alicerçada na fé, respondamos ao desafio que se nos coloca, abrindo horizontes de esperança na esfera do amor e do serviço. Com esta esperança, procuremos, pela palavra que escutamos ou dizemos, pelo abraço, pelo afeto que sentimos e fazemos sentir, abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, estar atentos e solícitos para com todos aqueles que, no clamor ou no silêncio, esperam por uma palavra, que as nossas mãos apertem as suas e sintam o calor da nossa presença. Mesmo não podendo curar, devemos sempre cuidar. Cuidar dos enfermos, visitando-os e apoiando-os nos problemas concretos é uma das missões nobres da ação pastoral das comunidades. Um dos problemas que deve interpelar as nossas comunidades é o das pessoas que pela idade ou doença vivem sozinhas em casa. Neste sentido, é fundamental a relação entre as unidades de saúde e as comunidades cristãs.

Não pode faltar ao nosso dia-a-dia a escuta da Palavra de Deus e a solicitude para quem está em necessidade, a oração pessoal e comunitária, a partilha espiritual e o testemunho, o trabalho assíduo e sério. Para tal, é necessário: 1º Fortalecer a nossa identidade e crescer na liberdade criativa para obedecer àquilo que Deus nos chama a ser; 2º Manter-nos atentos e abertos às comunidades; 3º Desenvolver as nossas capacidades para um exercício inteligente da caridade em favor dos que sofrem.

A pastoral não pode deixar de incorporar esta realidade do sofrimento. «Os pastores, que propõem aos fiéis o ideal pleno do Evangelho e a doutrina da Igreja, devem ajudá-los também a assumir a lógica da compaixão pelas pessoas frágeis e evitar perseguições ou juízos demasiado duros e impacientes. O próprio Evangelho exige que não julguemos nem condenemos. Jesus «espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente» (AL 308).

Para fazermos emergir Jesus como o rosto misericordioso de Deus Pai, temos de, sem ceder à tentação do sucesso, mas seguindo o mesmo método, o da humildade, deixar-nos imbuir da sua palavra e agir em conformidade com ela. O discípulo de Jesus tem de ser um agente de misericórdia «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10,37). Paulo alimenta a ideia da alegria aliada à prática da misericórdia e na carta aos Romanos convida a praticar a misericórdia com alegria (cf. Rm 12,8), pois “Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9,7). O mundo de hoje precisa deste testemunho contagiante da alegria, da esperança e da misericórdia. Que cada um de nós seja capaz de “levar a boa nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; consolar os que choram; proclamar o tempo da graça” (Is 61,1-3). No fundo, criar uma comunidade apaixonada pelo seguimento de Jesus, que seja discípula nos caminhos da história, vivendo sempre atenta à voz do Espírito que clama no coração de cada homem.

Ao pé da cruz, Cristo conduz-nos a Maria, aquela que tem o coração trespassado pela espada, que compreende todos os sofrimentos. Maria ensina-nos a meditar para encontrar solução. À semelhança de Cristo, sejamos, através de um coração terno e humilde, capaz de escutar, oferecer alegria e esperança, rasgar horizontes, de sentir e aliviar o sofrimento dos irmãos que encontramos no caminho da vida.

Lembrados de que a oração nos pode iluminar o sentido da dor, com Maria, Mãe de Cristo, que subiu ao Calvário e permaneceu firme diante da Cruz, peçamos a sua intercessão para nos ajudar a suportar todos os sofrimentos e a estarmos atentos ao sofrimento dos outros.

Que nesta Quaresma, possamos refletir e experimentar esta via criada por Deus para a nossa Redenção.

Oração

Deus Pai, rico em misericórdia
que eu una as minhas dores
aos sofrimentos do teu Filho Jesus,
que, por amor aos homens,
ofereceu a Sua vida no alto da cruz.

Senhor Jesus,
a ti ofereço todas as minhas preocupações,
angústias e sofrimentos,
para que eu seja mais digno de ti.

Que o sofrimento,
unido à cruz de Jesus,
não tenha a última palavra,
porque Tu, Jesus, és a minha esperança
e a salvação dos meus irmãos.

Maria, Mãe de Cristo, junto à Cruz,
ajuda-me a levar a minha cruz e a dos meus irmãos.

Ámen.

____________
Quaresma, 2019
† António Manuel Moiteiro Ramos,
Bispo de Aveiro