Big Bang e Deus

Big Bang e Deus

Pe. Cristóvão Cunha

Durante muito tempo, a astronomia foi vista com desconfiança. Talvez tenha mudado o paradigma o papa Gregório XIII. Foi ele a estabelecer o calendário gregoriano (depois de o calendário Juliano se ter tornado obsoleto), e com ele tinha um grupo de astrónomos, entre sacerdotes, matemáticos e cientistas, que ajudaram nos cálculos necessários.
A astronomia é de casa, no Vaticano, seja porque o Vaticano possui, às portas de Roma um observatório astronómico (Castelgandolfo) que funciona em cascata com um segundo observatório localizado numa montanha dos EUA (perto de Tucson, Arizona), seja porque o céu representa uma profunda metáfora religiosa: é um chamamento continuo e sempre novo ao desejo e à sede que o homem tem de infinito, é um convite constante à abertura para o insondável mistério do universo criado.

Este post é publico, e como tal, para todos os que o querem ler. É porém de maneira especial dedicado a todos aqueles que pensam a religião como algo absolutamente incompatível com a astronomia e as ciências exactas, como se fosse impossível crer em Deus e ter o Big Bang como a teoria mais razoável para explicar a origem do universo. Fé e Razão não se contradizem.
Uma leitura fundamentalista dos textos sagrados, leva a não poucos problemas. Como sublinha e bem a Constituição dogmática Dei Verbum, a Bíblia é o livro da Palavra de Deus dirigida a nós homens. É uma carta de amor que Deus escreve ao seu povo, numa linguagem que remonta a dois ou três mil anos atrás.
Como se sabe, a teoria do Big Bang é recente, e a história ou se faz (e escreve) por se ter sido testemunha dela, ou então, se faz por dedução. Olhando uma grande pedra com a forma de cogumelo, deduz-se que ela já foi encorpada e por via da erosão, foi ganhando aquela forma “nova”. Se há um século atrás, nenhum cientista podia falar na teoria do Big Bang, não podemos querer que há três mil anos atrás a bíblia desse uma resposta cientifica. A preocupação que presidiu não era, claramente, cientifica.

Em teologia, quando reflectimos sobre a ciência das origens, também denominada Protologia, falamos sobre os mitos da criação das várias culturas, sobretudo semitas e mesopotâmicas, e falamos, OBVIAMENTE, na teoria do Big Bang como a mais atendível e razoável.
Como crente, católico e padre, não vejo qualquer tipo de contradição entre Fé e Astronomia, entre o mundo e a criação, criados por Deus, e a teoria do Big Bang. E vou explicar os porquês.

A teoria (combinação de evidências/provas) do Big Bang baseia-se, para se sustentar, na constatação de um facto: o universo continua a expandir-se a uma velocidade avassaladora desde que “apareceu”. Essa teoria teve por base a analise das classes espectrais por Edwin Hublble em 1929. Curiosamente, dois anos antes, o padre católico e astrónomo belga Georges Lemaître já tinha equacionado um universo em expansão com origem num… “dia sem passado”.
Ora bem, sabendo da expansão do universo que terá a beleza de uns 13 milhares de milhões de anos, é fácil deduzir que antes de se expandir, o universo era mais “compacto”. Com a ciência contemporânea, foi possível com os ciclotrons ou aceleradores de partículas, decompor a matéria e assim, “viajar no tempo”, até bem perto da origem do universo. Não se chegou ao segundo 0,0s, digamos em palavras pobres, mas “chegou-se” ao chamado tempo de Planck que é igual a 10−43 segundos (dez elevado a menos quarenta e três). O que é uma infinidade dentro do próprio segundo. E sabe-se precisamente o que se “viu” naquele momento, não uma grande explosão como se costuma pensar, mas um desenvolvimento da matéria, a partir de uma singularidade inicial, mais pequena que o ponto final no final desta frase.

Assim, como teólogo e como astrónomo amador, sabendo quanto afirmei, é-me fácil continuar a acreditar em Deus criador, e na teoria do Big Bang.
Neste aspecto, bem como noutros, não há qualquer contradição entre fé e razão.
João Paulo II em 1998 escreveu a carta encíclica Fides et Ratio (fé e razão) e diz que ambas são como que duas asas que nos podem levar a Deus. Continua dizendo que a nada serve apenas a fé que nos levaria a um fideísmo cego, por lhe faltarem as razões, e um racionalismo que prescinde da fé conduz invariavelmente a um beco sem saída onde faltam as respostas às mais básicas questões antropológicas assim como às situações limite e às questões existenciais.

Um dos problemas (o maior) da relação entre a ciência e a fé é a ignorância. Por um lado, os cientistas deviam aprender a ler correctamente a bíblia e a compreender as verdades da fé. Por outro lado, os teólogos e os homens da “igreja” deveriam actualizar-se sobre os progressos da ciência, para conseguir dar respostas eficazes às questões que ela coloca continuamente.
Ter fé não significa negar os factos, as evidências científicas. Da mesma forma, ser cientista, ou mesmo astrónomo, não significa que devemos automaticamente pôr a nossa fé de lado. Respeito, evidentemente, quem possa ter a opinião contrária.
O que não se pode tolerar é quem extremiza posições e nega os factos. Da mesma forma que não compreenderei quem entre numa Igreja aos berros a afirmar que não tenho direito a estar lá com a minha fé, também não compreendo as atitudes de quem entra em locais de divulgação científica para afirmar mentiras à luz do (des)conhecimento que se tem dos assuntos. Foi também a pensar nesses que têm atitudes intolerantes que decidi escrever este texto. O extremismo, seja em que área for, nunca é bom conselheiro. Como Cristão, entendo que não fazer uso de um cérebro racional é negar uma dádiva de Deus. Tentar compreender o mundo através da ciência, em particular a astronomia, é desvelar um pouco mais o “véu” que nos faz compreender o Criador e a criação em que Este se revela. Negar as evidências cientificas, negar o conhecimento que se tem dos assuntos, é ir contra a vontade do Criador que nos deu os meios (a mente) e o Universo para podermos explorar.

Olhem o céu. Contar-vos-á histórias que nem pensais e vos deixará maravilhados. E a astronomia é para mim, como padre, a ciência que de uma maneira mais cabal nos consegue fazer aproximar daquela que é a grandeza de Deus.

“Aquele que criou as Plêiades e o Orion,

que muda as trevas na aurora

e reduz o dia a noite escura,

que convoca as águas do mar

e as derrama sobre a face da terra:

o seu nome é Senhor!”

Am 5, 8