Aveirenses ilustres | João Evangelista Loureiro – Pedagogo e professor universitário

Aveirenses Ilustres

João Evangelista Loureiro – Pedagogo e professor universitário

Cardoso Ferreira (textos)

Natural de Seixo de Mira, mas falecido em Aveiro, João Evangelista Loureiro notabilizou-se como pedagogo e professor universitário. Foi o primeiro a estudar a Obra de Rua, do Padre Américo.

João Evangelista Loureiro nasceu em Seixo de Mira (concelho de Mira), no dia 2 de fevereiro de 1926, e faleceu em Aveiro, no dia 8 de março de 1986, altura em que exercia as funções de vice-reitor da Universidade de Aveiro.

Estudou nas universidades de Coimbra, Salamanca, Madrid e Lovaina. Nesta última, doutorou-se em Ciências da Educação (Psicopedagogia). Foi docente nas universidades de Lourenço Marques (atual, Maputo), do Minho e de Aveiro, professor colaborador do Instituto Superior de Educação Física e professor visitante da Universidade de Salamanca.

Foi presidente da comissão instaladora da Escola Normal Superior de Lisboa e vogal das comissões instaladoras de algumas universidades, de escolas superiores de educação e de institutos politécnicos, nomeadamente das universidades do Minho e de Aveiro, bem como do primeiro Conselho Científico da Escola Superior de Educação de Viseu, nesta última, em representação do CIFOP da Universidade de Aveiro.

Como investigador, a sua ação centrou-se em três áreas temáticas: política educativa e formação de professores; desenvolvimento e avaliação institucional; carências afetivas precoces.

João Evangelista Loureiro foi o grande impulsionador do primeiro Centro Integrado de Formação de Professores (CIFOP) existente em Portugal, do qual resultou a atual Unidade Integrada de Formação Contínua, da Universidade de Aveiro. A criação deste organismo resultou de uma proposta do governo feita à Universidade de Aveiro, no ano letivo de 1977/78, e que visava a formação de professores, desde a Educação de Infância ao Ensino Superior, com recurso a currículos e metodologias inovadoras.

Ainda em vida, foi galardoado com a “Ordre des Palmes Académiques”, atribuída pelo Governo Francês. A título póstumo, o presidente da República, Jorge Sampaio, atribuiu-lhe a Ordem da Instrução Pública, alguns anos após a sua morte.

Depoimento do amigo Sampaio da Nóvoa

Em março de 2016, o professor, antigo reitor e reitor honorário da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, amigo de João Evangelista Loureiro, e a pedido da filha deste, a docente universitária Maria José Loureiro, escreveu um depoimento, então publicado pela Universidade de Aveiro.

Nesse depoimento, o atual embaixador de Portugal na UNESCO, começou por recordar que “na década de 1960, quando despontava em todo o mundo um interesse renovado pela abordagem científica dos temas educativos e pela formação de professores, João Evangelista Loureiro foi um dos primeiros portugueses a compreender este movimento e a sua importância para a democratização do ensino”, o que vem no seguimento da “sua formação doutoral, na Bélgica”, e também dos “vários estudos publicados no início da década de 1970”, os quais revelavam “bem a modernidade do seu pensamento, sobretudo num país, como Portugal, tão marcado por conceções conservadoras e retrógradas”.

João Evangelista Loureiro colaborou “com a reforma de Veiga Simão, personalidade com quem tinha trabalhado na Universidade de Lourenço Marques”, tendo sido nomeado, em 1973, dirigente da Escola Normal Superior de Lisboa. No ano seguinte, “rapidamente se apercebeu de que a nova realidade política, aberta pelo 25 de Abril, permitia iniciativas mais ousadas e inovadoras”, pelo que “teve um papel fundamental na criação das universidades novas, sobretudo no Minho e em Aveiro, nas quais a educação e a formação de professores tiveram, desde o início, um papel decisivo”.

Por ter realizado “um trabalho notável em todo o país, também na passagem para nível superior e universitário de outras formações e profissões (educação física, saúde, serviço social, artes, etc.)”, João Evangelista Loureiro é, no dizer de Sampaio da Nóvoa, “uma das referências principais na construção dos atuais modelos de formação de professores e na definição da rede do ensino superior em Portugal”, acrescentando que, como “professor, pedagogo, humanista, revelou uma grande capacidade de antecipação e deu um contributo fundamental para a renovação da educação, da cultura e das instituições”.

O antigo candidato à Presidência da República destaca ainda, no seu depoimento, que “pessoalmente, devo-lhe muitíssimo. Foi ele que me incentivou a passar da Escola do Magistério Primário de Aveiro para a Universidade de Genebra, onde me formei em Ciências da Educação. Mais tarde, apoiou a realização da minha primeira tese de doutoramento, cuja defesa pública teve lugar no dia 26 de março de 1986. João Evangelista Loureiro estava nomeado para o júri, mas faleceu, repentinamente, alguns dias antes”.

Porque guarda “muito viva a sua memória e o seu exemplo”, Sampaio da Nóvoa termina, escrevendo que “faz-nos bem recordar este homem generoso, de espírito aberto e tolerante, que tudo fez para dotar Portugal de um sistema educativo, de estruturas de formação de professores e de uma rede universitária à altura das exigências e dos desafios do nosso tempo”.

Uma nota final sobre a ligação de Sampaio da Nóvoa a Aveiro. Entre 1977 e 1979, António Sampaio da Nóvoa deu aulas de expressão dramática no Magistério Primário de Aveiro. No ano de 1979, foi um dos fundadores do Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro (GRETUA), tendo sido também o seu primeiro encenador, no ano de 1980, com a peça “Uma corda para cada dedo”.

Foi ainda em Aveiro que conheceu Carlos Fragateiro, professor na Universidade de Aveiro e antigo diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, com quem lançou os “Encontros Internacionais de Teatro e Educação”.

Um admirador da obra pedagógica do Padre Américo

Na sua tese de doutoramento, defendida na Universidade de Lovaina, João Evangelista Loureiro procedeu à história da iniciativa educacional de proteção de crianças em situação de abandono, desenvolvida pelo Padre Américo, tese que deu origem ao livro “L’Obra da Rua et l’Éducation des enfants privés de milieu educatif”, publicado no ano de 1972.

No entanto, há muito que João Evangelista Loureiro se interessava pelo fundador da Obra da Rua. No ano de 1964, publicou uma outra obra sobre o Padre Américo, intitulada “Subsídios para o Estudo do Pensamento Pedagógico do Padre Américo”.

Entre as obras deste investigador e antigo vice-reitor da Universidade de Aveiro, destaca-se “O Escutismo e o Método Pedagógico de Baden-Powell”.

 (A rubrica «Aveirenses ilustres» é disponibilizada em parceria com o jornal diocesano Correio do Vouga)