Aveirenses ilustres: Francisco Augusto da Fonseca Regala | Tio e sobrinho 

Aveirenses Ilustres

Francisco Augusto da Fonseca Regala | Tio e sobrinho

Cardoso Ferreira (textos)

Francisco Augusto da Fonseca Regala é o nome comum a dois ilustres aveirenses (tio e sobrinho), ambos militares. O tio ficou na história de Aveiro, enquanto o sobrinho tem o seu nome ligado a Cabo Verde. Há ainda um neto que atualmente é o “número dois” do governo da Guiné-Bissau.

Francisco Augusto da Fonseca Regala (tio), militar e reitor do Liceu de Aveiro

Francisco Augusto da Fonseca Regala (1848–1927) era um dos 17 filhos de Luís dos Santos Regala (advogado) e de Leopoldina Ferreira de Lemos.

A par da sua carreira militar, como oficial da Armada, Francisco Augusto da Fonseca Regala desenvolveu uma relevante atividade cívica em Aveiro. Por sua iniciativa, no ano de 1882, foi fundado o Grémio Moderno, uma associação que visava “concorrer para o progresso material e moral” da cidade e do distrito de Aveiro.

Ainda nesse ano de 1882, foi publicada em Aveiro a obra intitulada “Ao Marquez de Pombal: homenagem do Gremio Moderno”, cuja comissão de redação era constituída por Francisco Augusto da Fonseca Regala, Carlos de Faria e Mello e José Maria Barbosa de Magalhães.

Uns anos mais tarde, após a criação da primeira corporação de bombeiros em Aveiro, Francisco Regala foi escolhido para ser o seu primeiro comandante, cargo que desempenhou durante alguns anos, e no qual foi substituído pelo Dr. Joaquim de Melo Freitas.

No dia 2 de novembro de 1895, e apesar de não ser docente, Francisco Regala foi empossado reitor do Liceu de Aveiro, cargo que desempenhou até à implantação da República, em 1910.

No dia 3 de setembro de 1902, Francisco Regala foi nomeado Governador Civil de Aveiro, substituindo o Dr. Carlos de Almeida Braga, que tomara posse no dia 29 de janeiro desse mesmo ano. Desempenhou esse cargo até 26 de outubro de 1904, data em que o mesmo passou para Albano de Melo Ribeiro Pinto.

Em 1909, Francisco Regala foi um dos subscritores da proposta avançada pelo Clube dos Galitos, para se erguer um monumento de homenagem a José Estevão, o qual se encontra na Praça Melo Freitas, junto aos “Arcos”.

Década e meia à frente do Liceu

A década e meia em que Francisco Augusto da Fonseca Regala dirigiu os destinos do Liceu de Aveiro marcou essa instituição e fez dele um dos ilustres aveirenses.

Durante alguns anos, o Liceu (instalado no edifício da atual Escola Homem Cristo) partilhou algum do seu espaço com repartições de serviços públicos, nomeadamente as Finanças, que aí estiveram sedeadas até 1903, bem como o Governo Civil de Aveiro, que se mudou para um imóvel próprio (na Praça Marquês de Pombal), no ano de 1907.

Francisco Regala foi o autor de uma proposta, apresentada em 5 de abril de 1907, para a criação da “Caixa Escolar do Lyceu Nacional de Aveiro”, uma associação que visava “constituir capital destinado ao pagamento das despesas a fazer em excursões escolares de estudo e subsidiar estudantes pobres que frequentarem o Liceu, fornecendo-lhes livros, pagando-lhes propinas de matrícula, e quando for possível, conceder-lhes pensões para a sua alimentação”.

Em março do ano seguinte, Francisco Regala, que também era o presidente da Caixa Económica de Aveiro, informa o Conselho Escolar do Liceu que a Caixa Económica instituía um prémio anual, denominado “Prémio do Governador Civil Nicolau Anastácio Bettencourt”, a atribuir ao aluno da 5.ª classe que concluísse com distinção o Curso Geral do Liceu.

Com a demissão de todos os reitores imposto pelo regime republicano logo após o 5 de outubro de 1910, também Francisco Augusto da Fonseca Regala foi destituído do cargo de reitor do Liceu de Aveiro, sendo substituído pelo Dr. Álvaro de Moura Coutinho de Almeida de Eça, sobrinho do primeiro reitor do Liceu.

Francisco Augusto da Fonseca Regala (sobrinho), médico e militar

Francisco Augusto da Fonseca Regala nasceu no dia 7 de abril de 1871, em Aveiro, e faleceu no dia 11 de abril de 1937, na cidade do Mindelo (Cabo Verde). Era filho de (Luis) Augusto da Fonseca Regala e de Maria dos Prazeres Gamelas. Foi casado com com Elvira Freire Monteiro, e pai de Agnelo Augusto Regala, Mário Augusto Monteiro Regala, Armanda Monteiro Regala, Crisanta Monteiro Regala e Hélia Regala, alguns dos quais nasceram em Cabo Verde e outros na Guiné Bissau.

Ainda jovem, foi para Cabo Verde, para exercer as funções de médico, graduado em oficial subalterno de Exército, c om a patente de tenente, terminando a carreira militar no posto de coronel.

De Cabo Verde, passou para a Guiné, em 1915, tendo integrado a guarnição da Fortaleza de Amura.

De regresso a Cabo Verde, instalou-se na cidade do Mindelo (Ilha de S. Vicente), sendo, em 1934, o oficial de mais alta patente residente nessa cidade, a segunda mais importante do arquipélago. Em junho de 1934 quando da revolução do “Capitão” Ambrósio, teve uma intervenção decisiva de apaziguamento junto do povo amotinado e das autoridades civis e militares locais, o que evitou o agravamento da sublevação e, possivelmente, contribuiu para salvar vidas.

Médico e autarca

Foi um médico muito dedicado à população de S. Vicente, como ficou demonstrado nos anos de 1920 e 1921. Quando a peste bubónica flagelou na ilha, provocando um surto epidémico, de proporções graves, que se generalizou em pouco tempo e ameaçou subverter a ilha numa onda de morte. Dizem as crónicas que o “Dr. Regala fez mais do que humanamente seria de esperar: ministrava socorros aos atingidos, estava presente à cabeceira dos moribundos e procurava, ao mesmo tempo, neutralizar a marcha acelerada do flagelo. Com os fracos recursos médicos e medicamentosos existentes então, operou um verdadeiro milagre”.

Francisco Regala foi um dos primeiros médicos a exercer em Cabo Verde.

Francisco Regala assumiu também cargos autárquicos na cidade do Mindelo. No dia 6 de agosto de 1925, foi ele, na qualidade de presidente da Câmara Municipal do Mindelo, que assinou o contrato que permitiu a chegada da eletricidade à cidade.

O seu funeral foi uma grande manifestação de pesar, com a participação das mais diversas entidades militares, civis e religiosas, coletividades e população.

Ainda hoje existe, na zona histórica da baixa do Mindelo a Praça Dr.  Regala, onde repousa o busto de bronze erigido por subscrição pública, da autoria de R. de Castro e datado de 1941.

Agnelo Augusto Regalla (neto) – Ministro do atual governo da Guiné-Bissau

Um neto de Francisco Augusto da Fonseca Regala (sobrinho) é o escritor, poeta e político Agnelo Augusto Regalla, que atualmente é o “número dois” do Governo da Guiné Bissau, desempenhando o cargo de ministro da Presidência de Conselho de Ministros e Assuntos Parlamentares.
Agnelo Regalla, nasceu em Campeane (Tombali), na Guiné-Bissau, a 9 de julho de 1952. Formou-se em jornalismo no Centro de Formação de Jornalistas, em França. Tem uma vasta obra literária, essencialmente poesia.

 (A rubrica «Aveirenses ilustres» é promovida em parceria com o jornal diocesano Correio do Vouga)