Aveirense ilustre – Manuel Freitas, fundador do Museu do Ouro

Aveirense Ilustre

Manuel Freitas, fundador do Museu do Ouro

Cardoso Ferreira (Textos)

Natural de Requeixo, no ano de 1940, Manuel Rodrigues Freitas fixou residência em Viana do Castelo, cidade geminada com Aveiro, onde se notabilizou como ourives e fundador do Museu de Ourivesaria Tradicional Portuguesa.

Manuel Rodrigues de Freitas nasceu em Requeixo, concelho de Aveiro, no ano de 1940, numa família humilde e rural, sendo filho de uma mãe analfabeta e de um pai surdo-mudo, tal como uma irmã. Os pais, no entanto, tudo fizeram para dar um futuro melhor aos filhos, como este mesmo reconheceu ao afirmar numa entrevista publicada no “Diário de Notícias”: “A minha mãe fez o que podia para me ajudar, mas era muito rigorosa. Venderam muitas leiras para eu poder estudar”.

Durante a escola primária, ainda em Aveiro, Manuel Freitas era “dos piores alunos”, por causa da “perseguição” dos colegas. Foi precisamente aí que encontrou a professora Sara, que lhe transformou a vida. “Puxou por mim e, em 15 dias, escondidos de todos, deu-me explicações de matemática. A partir daí, tornei-me sempre no melhor aluno”, disse na referida entrevista, na qual também recordou a ajuda que dava em casa: “(…) Tinha de preparar o estrume. Era feito, entre outras coisas, com nenúfares. Por isso é que nunca encontrei batatas como as daquela terra noutro lugar”,

A partir dos 10 anos de idade, as férias eram passadas em Viana do Castelo, na ourivesaria Freitas, propriedade do tio, a trabalhar na ourivesaria, iniciando a aprendizagem de uma arte em que, anos mais tarde, se tornou um mestre de renome nacional.

De Aveiro passou para Tondela, onde continuou os estudos no Colégio Tomás Ribeiro. A etapa seguinte foi passada em Moçambique, onde esteve pouco mais de dois anos, como militar, durante a guerra colonial.

 

De Aveiro para  Viana do Castelo

Manuel Freitas é um bom exemplo do espírito de irmandade que une as cidades irmãs de Aveiro e de Viana do Castelo, já que nasceu na primeira e fixou residência na segunda, onde já estavam familiares seus, nomeadamente o seu tio Joaquim Simões de Freitas, que, no ano de 1920, abriu a Ourivesaria Freitas, dando seguimento a uma outra fundada em 1880 por um seu familiar.

Nas férias de verão que passou em Viana do Castelo, Manuel Freitas não só aprendeu a arte de trabalhar o ouro, como também foi aí que conheceu a mulher que viria a ser a sua esposa, Filomena Costa Freitas, licenciada em filologia-românica e em histórico-filosóficas pela Universidade de Coimbra, que foi professora na Escola Comercial e Industrial de Viana e depois no antigo Liceu de Viana do Castelo. Desse casamento nasceram dois filhos, a Marisa e o Eduardo, ambos já falecidos.

Manuel Freitas licenciou-se em economia, na Universidade do Porto, ainda que o seu desejo inicial fosse o de ser engenheiro. Terminado o curso, ingressou no então Banco Pinto Magalhães, como inspetor, e mais tarde, garante, recusou um convite para gerir uma delegação no Brasil.

Depois da atividade bancária, passou a lecionar economia e contabilidade na Escola Comercial de Viana do Castelo, funções a que pôs termo após a revolução de 25 de abril de 1974. Nessa altura, conta, “acabou-se a disciplina, os alunos faziam o que queriam”. “De um dia para o outro, deixei de aparecer na escola porque não estava para aturar aquilo. Assim o fiz e não voltei mais”, confessou uns anos mais tarde. No entanto, desde 1969 geria a ourivesaria do tio, negócio que, a partir de 1974, passou a ser a sua principal profissão.

Museu de Ourivesaria Tradicional Portuguesa

No dia 13 de agosto de 2007, Manuel Freitas abriu o Museu da Ourivesaria Tradicional Portuguesa, no qual expôs um espólio de cerca de 800 peças antigas, de grande valor museológico. Esse polo museológico, juntamente com a ourivesaria, foi violentamente assaltado no dia 6 de setembro de 2007, tendo desaparecido grande parte das peças.

Esse facto, no entanto, não demoveu a vontade de Manuel Freitas reabrir novamente o museu, o que aconteceu no dia 16 de dezembro de 2008. “[Aproveitamos] as peças que sobraram, outras que ainda tínhamos de reserva, outras oferecidas por vianenses e reproduções se muitas das peças roubadas, oferecidas, na sua maioria por fabricantes”, explicou. A par das joias, o museu também expunha inúmeros utensílios antigos de fabrico e dezenas de desenhos de joias.

Em julho de 2011, o Museu de Ourivesaria Tradicional Portuguesa deu lugar à Sala do Ouro, instalada no Museu do Traje de Viana do Castelo, mudança que se deveu à doação de cerca de 650 peças que Manuel Freitas fez à Câmara Municipal de Viana do Castelo.

Manuel Freitas publicou diversas obras sobre ourivesaria, entre as quais o “Livro do Museu da Ourivesaria Tradicional” e “Ouro de Viana”, sendo também colaborador de algumas revistas da especialidade.

Após a morte do seu filho, e em homenagem a ele, criou a Fundação Eduardo Freitas.

Intervenção cívica

Com as primeiras eleições autárquicas, Manuel Freitas tornou-se no primeiro presidente da Assembleia Municipal de Viana do Castelo. Mais tarde, assumiu funções de vereador no executivo municipal. A nível partidário, foi um dos fundadores do Partido Popular Democrático (PPD), hoje Partido Social Democrático (PSD), sendo dirigente local.

Com ourives e autor de livros, tem sido benemérito de instituições como o Berço de Nossa Senhora das Necessidades e o CAT do Centro Social Paroquial de Nossa Senhora de Fátima.

Requeixo continua a ser uma referência para Manuel Freitas, terra com que mantém laços de familiaridade. Há poucos anos, doou peças artísticas e valiosas à Igreja Matriz de Requeixo, tendo sido também alvo de uma homenagem por parte dessa freguesia aveirense.

 (A rubrica «Aveirenses ilustres» é promovida em parceria com o jornal diocesano Correio do Vouga)