Aveirense ilustre: DOMINGOS JOSÉ CERQUEIRA | Pedagogo e autor da “Cartilha Escolar”

Aveirense Ilustre

Domingos José Cerqueira | Pedagogo e autor da “Cartilha Escolar”

Cardoso Ferreira (textos)

Natural de Ponte de Lima, José Domingos Cerqueira fixou residência em Aveiro, cidade onde se notabilizou como pedagogo.

 

Domingos José Cerqueira nasceu em Ponte de Lima, no dia 14 de abril de 1870, e morreu na cidade de Aveiro, no dia 8 de dezembro de 1927, com 57 anos de idade, por motivos de doença, não chegando a conhecer o seu neto José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, compositor e cantor mais conhecido pelo nome de Zeca, que nasceu em Aveiro, no dia 2 de agosto de 1929.

Ainda em Ponte de Lima, Domingos José Cerqueira, que exercia a profissão de professor livre e de professor oficial, casou-se com a conterrânea Rosa Augusta Dantas, também nascida no ano de 1870. Desse casamento nasceu Maria das Dores Dantas Cerqueira (em 1901) que, por sua vez, se casou com o juiz José Nepomuceno Afonso dos Santos, natural do Fundão, que foram pais de, entre outros, o cantor José Afonso.

Foi já depois do casamento da filha que o casal Domingos José Cerqueira fixou residência definitiva em Aveiro, mudança motivada pela sua carreira ligada ao ensino primário, em que foi professor e inspetor escolar.

Em Aveiro, Domingos José Cerqueira iniciou a criação de escolas infantis, as quais foram, possivelmente, as primeiras do género que existiram em Portugal. A par da sua atividade pedagógica, ainda conseguia tempo para colaborar na imprensa local.

No entanto, o que o notabilizou foi a sua “Cartilha Escolar: Ler, escrever, contar”, cuja primeira edição surgiu no ano de 1912, por intermédio da “Livraria Chardron”, da “Lelo & Irmão, Editores”, da cidade do Porto.

O avô Cerqueira

José (Zeca) Afonso, nascido em 1929, não chegou a conhecer o seu avô materno, Domingos José Cerqueira, falecido quase dois anos antes. No entanto, referindo-se ao seu avô, o cantor referiu um dia: “Descobri recentemente que sou neto de um gajo, um maçon livre-pensador de Aveiro, um republicano daqueles bigodudos que esteve ligado a um movimento importante de renovação escolar. Chamava-se Domingos José Cerqueira e parece que foi um dos tipos que introduziu o culto da árvore nas escolas. E chegou a fazer uma «cartilha», a segunda depois da «Cartilha Maternal», de João de Deus”, conforme se pode ler em “As Voltas de Um Andarilho”, de Viriato Teles, publicado pela “Assírio & Alvim”, no ano de 2009), e também na fotobiografia de Zeca Afonso, com texto de Irene Flunser Pimentel, editada pelo “Círculo de Leitores”, em 2009.

Por sua vez, Júlio de Lemos (Júlio dos Reis Lemos), um investigador regionalista, historiógrafo com vasta obra publicada, jornalista e diretor da “Limiana – Revista Literária”, referindo-se a Domingos José Cerqueira, escreveu que ele era um ser de “inteligência ricamente dotada” e “a bondade em pessoa”.

Cartilha Escolar

A obra que notabilizou Domingos José Cerqueira foi a sua “Cartilha Escolar (Ler, escrever e contar)”, publicada pela primeira vez no ano de 1912.

No prefácio da primeira edição, intitulado “Aos senhores professores”, o próprio Domingos Cerqueira escreve: “O autor da Cartilha Escolar é um profissional. Dirigindo uma escola frequentadíssima, teve necessidade de pôr em prática os melhores processos de ensino, para com o maior aproveitamento dos alunos, despender o menor esforço, porque a sua atenção e atividade havia de distribuir-se, muitas vezes, por quatro classes, qual delas a mais numerosa.”

Apesar de ser considerada por muitos como sendo “republicana”, o certo é que a “Cartilha Escolar (Ler, escrever, contar)” continuava a ser usada nas escolas portuguesas durante a década de 1940, bem como na década seguinte, quando muitas escolas ainda a utilizavam para auxiliar os alunos na iniciação à leitura. Segundo alguns críticos, nessa “Cartilha Escolar”, que teve sucesso imediato sobretudo no Norte do país, “não há textos sobre a religião cristã, mas há lições, com pobrezinhos, que ensinam solidariedade e trechos patrióticos”.

Quando da reedição da “Cartilha Escolar”, pela Lello, na década de 1980, Miguel Esteves Cardoso, escreveu: “Na realidade, é um livrinho maravilhoso, dividido em 25 lições, todas deliciosamente ilustradas e graficamente encantadoras. A penúltima lição é patriótica e empolgante «Defende-a e engrandece-a, Para a defender, não duvides verter por ela o teu sangue, se dele a Pátria carece» (pág. 59). Trata-se de uma alternativa «dura» e «surrealista» ao terno sentimentalismo da Cartilha Maternal de João de Deus e as crianças de hoje devem apreciá-la desmedidamente, nem que seja só pelo exotismo da época. Finalmente, louve-se o facto da Lello poder oferecer uma edição de tão grande qualidade, em tudo igual à original, com capa cartonada e ilustrações a quatro cores (só a capa é monocromática!) pelo preço de um jornal, 75$00. Devem comprar-se muitos exemplares e distribuí-los a todas as pessoas que encontrarem” – das crónicas de Miguel Esteves Cardoso publicadas no jornal “Expresso”, compiladas no livro “A causa das coisas”.

 

Louvor do governo em 1927

O jornal “A Educação Nacional” registou a inteligência e as qualidades do carácter de Domingos José Cerqueira.

Mais tarde, em 1924, o jornal “A federação Escolar” integrou o nome de Domingos José Cerqueira entre “a plêiade de funcionários distintos que ainda sustêm a Inspeção Escolar entre nós”.

Finalmente, em 1927, Domingos José Cerqueira recebeu um louvor do Governo pelo seu trabalho em prol da instrução, particularmente no exercício das funções de inspetor escolar no Círculo de Aveiro.

 (A rubrica «Aveirenses ilustres» é promovida em parceria com o jornal diocesano Correio do Vouga)