Aveirense Ilustre: António, Álvaro e Gonçalo Lé, familiares e músicos

Aveirense Ilustre

António, Álvaro e Gonçalo Lé, familiares e músicos

Cardoso Ferreira (Textos)

Originários de Ílhavo, ainda que um nascido em Lisboa e outro em Aveiro, os irmãos António e Álvaro dos Santos Lé ficaram na história aveirense como dois vultos que se distinguiram na área musical, tal como o filho do segundo, Gonçalo Luís Barbosa Lé, que também deixou marca relevante nessa área. 

 

António dos Santos Lé

António dos Santos Lé nasceu na freguesia de S. Miguel de Alfama, na cidade de Lisboa, no dia 1 de setembro de 1879, terra onde o seu pai, natural de Ílhavo, então residia. Faleceu em Aveiro, no ano de 1961.

Ainda durante a sua infância, acompanhou os progenitores para a cidade de Aveiro, onde a família fixou residência. Nesta cidade, distinguiu-se como musicólogo, musicógrafo, mestre de numerosos discípulos e regente de bandas, orquestras e agrupamentos musicais, entre os quais a Filarmónica José Estevão, uma das bandas então existentes na cidade.

No ano de 1908, António dos Santos Lé transformou a então charanga do Asilo-Escola Distrital, que havia sido organizada em 1889 por José Pinheiro Nobre, numa banda marcial. Nesse mesmo ano, e após a dissolução da “Filarmónica Aveirense”, fundou a banda da Escola Musical de José Estêvão.

No dia 25 de setembro de 1983, António dos Santos Lé foi alvo de uma homenagem na cidade de Aveiro, que incluiu o descerramento da placa toponímica na rua com o seu nome (no bairro da Beira Mar), uma missa solene com a participação musical de alguns dos seus antigos alunos, um desfile pelas ruas da cidade (com a presença da Banda Amizade, bombeiros voluntários, ranchos folclóricos, coletividades), e, no Parque Infante D. Pedro, um concerto pela Banda Amizade e um espetáculo com o Rancho Folclórico do Baixo Vouga (de Eixo).

Álvaro dos Santos Lé

Álvaro dos Santos Lé, irmão de António dos Santos Lé, nasceu na aveirense Rua Direita, no dia 13 de dezembro de 1888, na Rua Direita, e faleceu nesta mesma cidade, também num dia 13de dezembro, mas do ano de 1944.

Em Aveiro, foi aluno do Colégio Aveirense e do Liceu Nacional. Teve aulas de música com Júlio Hugoline, um mestre de música e de canto que foi comendador da Real Câmara Portuguesa.

Como cantor, sobretudo de clássicos e ópera, Álvaro dos Santos Lé atuou não só em Portugal, mas também em Itália, França e Brasil. Foi no ano de 1908 que se estreou, no Teatro da Paz, num sarau musical em que cantou o trecho “Vesti la giuba”, de Leoncavallo. No Brasil, notabilizou-se ao interpretar trechos como a “Favorita”. “Tosca”, “Rigoleto” e “Pagliaci”. No ano de 1910, atuou na cidade de Aveiro, na antiga Igreja de S. Bernardino, numa festa em honra do Sagrado Coração de Jesus; onde no local recebeu inúmeros aplausos. Em 1913, cantou no Teatro Aveirense e em diversas festas religiosas.

No dia 15 de setembro de 1918, nas comemorações do aniversário da morte do anadiense Manuel Alves “Poeta Cavador”, na sessão realizada no teatro Paraíso, Álvaro dos Santos Lé cantou o “Hino da Plêiade Bairradina”.

A par do canto, Álvaro dos Santos Lé foi também músico, tendo integrado a Filarmónica José Estêvão, na altura em que o irmão, António dos Santos Lé, era o maestro.

A par da atividade musical, Álvaro dos Santos Lé foi um empresário de sucesso, tanto no Brasil, como em Aveiro. O pintor e ceramista aveirense João Pinto Calisto (mestre na “Aleluia”) ao falar do seu pai, o escultor João dos Santos Calisto, referiu que este executou o busto de Álvaro dos Santos Lé, peça que durante anos esteve exposta na antiga “Sapataria Lé”, propriedade de Gonçalo Lé, no local muito próximo da casa onde o escultor faleceu, e que pertenceu a Álvaro dos Santos Lé. Este, “depois de vir do Brasil, construiu o primeiro campo de futebol que houve em Aveiro, no bairro com o seu nome que então existia junto à Sé de Aveiro”, recordou aquele pintor.

Gonçalo Luís Barbosa Lé

Filho de Álvaro dos Santos Lé, Gonçalo Luís Barbosa Lé, falecido em 2012, seguiu os passos do pai, tanto na área empresarial, como na área musical, a que ainda acrescentou a sua faceta de desportista. Na primeira, foi proprietário, durante anos, de uma sapataria, com o seu nome, localizada nas proximidades da Sé de Aveiro.

Na vertente desportiva, foi atleta, da modalidade de andebol, nos clubes aveirenses “Galitos” e “Beira Mar”.

A veia musical ficou patente nas várias músicas que compôs e nas letras que escreveu, para além de ser também executante e ensaiador. Foi cofundador do Grupo Cénico das Barrocas e, após a sua saída deste grupo aveirense, fundou o Grupo Cénico Cantares da Ria. O então presidente da assembleia geral desta última agremiação, Naia Sardo, referiu que Gonçalo Lé, além de presidente da direção, “era também e desde sempre o seu ensaiador e escreveu muita música e letra para ele”.

Gonçalo Luís Barbosa Lé foi também um ativo cidadão aveirense, empenhado na comunidade, tendo desempenhado, em dois mandatos, o cargo de presidente da Assembleia de Freguesia da Glória (Aveiro). Foi um dos dinamizadores dos cortejos carnavalescos então organizados pela paróquia da Glória (Sé), bem como dos cortejos das “Pastorinhas”.

Por tudo isso, no feriado municipal (abril de 2013), a Câmara Municipal de Aveiro atribuiu-lhe, a título póstumo, a Medalha de Mérito Cívico.

 (A rubrica «Aveirenses ilustres» é promovida em parceria com o jornal diocesano Correio do Vouga)