Aliança interrompida

ALIANÇA INTERROMPIDA

Pe. Georgino Rocha

A harmonia original é interrompida pela pretensão do ser humano querer alterar o pacto acordado com o Criador. Em vez de uma relação entre desiguais, pois é criatura, quis passar a uma outra de iguais. O autor sagrado recorre ao mito da árvore da ciência do bem e do mal. A insinuação vinda de uma força estranha, exterior, seduz o coração humano e faz germinar o desejo de experimentar. A tentação de autoafirmação surge com elegância e persuasão. O casal aventura-se e quer saborear a novidade sonhada. Pretende construir o seu próprio projecto, sem outro critério que não seja o poder dispor de si e de usar as suas capacidades de definir o bem e o mal na história, e de dominar, como lhe apraz, as criaturas e o meio envolvente. Ao querer viver em liberdade e usufruir da vida, acaba por se deparar com a nudez que envergonha e a incomunicação que ensurdece, o esconderijo que isola e a acusação que revolta.

Os sinais da desordem introduzida sucedem-se ao longo da história. Os primeiros passos da humanidade estão marcados pelas sequelas da alteração ocorrida. É como a fonte da água poluída que vai contaminando os campos necessitados de rega. A relação do homem com a mulher torna-se conflituosa e a dos irmãos origina a inveja e a violência de morte. A situação desordenada da terra é suja e empobrecida com o sangue derramado e as lutas mortíferas, com a inversão de valores e adulteração dos critérios no uso das coisas.

A desarmonia nasce no coração humano que sofre de um vazio nunca plenamente satisfeito e se repercute na relação vital com os outros, com a natureza e com Deus. E quem nasceu para a comunhão geme a amargura da sua auto-exclusão pervertida e da escala de valores que pautam o seu comportamento ético, do ostracismo a que é votado, frequentemente.

Em todas as rupturas, há sempre um sinal que deixa vislumbrar a esperança de uma nova situação e de ser renovada a aliança celebrada. O Criador toma a iniciativa de arranjar roupa para a nudez do casal originário, de assinalar o assassino do irmão para ser poupado à retaliação, de fazer o apelo/convite a Noé para construir a arca e salvar do dilúvio um resto exemplar. Deus compromete-se a nunca mais destruir a terra nem a humanidade. E como sinal desta “palavra de honra” fica o arco-íris, o arco-da-velha aliança.

Hoje, a crise ecológica configura-se de muitos modos que ameaçam a casa comum da natureza e do ambiente de caminhar para uma catástrofe de consequências incalculáveis. O Papa Francisco, apoiando-se em estudos científicos de autores sérios e no magistério da Igreja, não cessa de alertar para este perigo. A sua encíclica “Louvado Sejas” (publicada a 24 de Maio de 2015) constitui, sem dúvida, a «carta magna» da Igreja nesta matéria. E também aduz a esperança de um novo rumo que possa refazer a relação natural de harmonia entre todos os seres, entre os humanos, a natureza e seu Criador. Relação agora selada por Jesus Cristo com a sua vida, morte e ressurreição, como se apresentará em outro apontamento.

O Papa escreve: “Os efeitos do atual desequilíbrio só podem ser reduzidos pela nossa ação decisiva, aqui e agora”. Em cada ser humano há uma energia, ainda que debilitada, que sempre alimenta o sonho da harmonia natural. Ninguém precisa de ser o chefe de uma empresa para fazer mudanças. Pessoas comuns podem ajudar a natureza ameaçada. Por isso, ele propõe alterar estilos de vida através de pequenos gestos cotidianos como a reciclagem; a separação do lixo; e colocar um casaco ao invés de aumentar a temperatura.

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