ABC do Ecumenismo IV/IV (conclusão)

ABC do Ecumenismo IV/IV

Jorge Pires Ferreira

Sacramentos – A questão dos sacramentos, que na definição católica mais simples são “sinais sensíveis e eficazes de salvação”, separa as confissões cristãs. À volta deles gira muito do ecumenismo prático. Por exemplo: até que ponto um cristão pode participar numa celebração de outra confissão e, no caso de ser uma Missa, comungar? Não há, entre as maiores confissões cristãs, um acordo sobre a Eucaristia (alguns protestantes chamam-lhe Santa Ceia). E não é ilusão afirmar que se houvesse, dada a distância atual das teologias sobre a Eucaristia (da afirmação católica da presença real de Jesus no pão e no vinho, incluindo depois da realização da Eucaristia, à presença simbólica luterana e apenas durante a celebração), estaríamos muito perto da unidade. Aliás, partilhar o mesmo Pão e o mesmo Vinho será a unidade. Já sobre o batismo, há progressos reais. Fiquemos pelo caso português. Em 25 de janeiro de 2014, a Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica, a Igreja Evangélica Metodista Portuguesa, a Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal e a Igreja Ortodoxa do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla assinaram em Lisboa uma declaração de reconhecimento mútuo do Sacramento do Batismo. Sem entrar em grandes pormenores, católicos e ortodoxos têm os mesmos sete sacramentos (embora os administrem habitualmente de forma diferente). Os protestantes em geral aceitam apenas dois, o Batismo e a Eucaristia. Os anglicanos têm os chamados “dois sacramentos do Evangelho” (Batismo e a Eucaristia) e chamam aos outros cinco “ritos sacramentais” ou “ritos comummente chamados sacramentos”. Recentemente deu-se o caso curioso de ver o Arcebispo de Cantuária, primaz da Comunhão Anglicana, a aconselhar a confissão auricular. D. Justin Welby, que tem como conselheiro espiritual um padre católico, afirmou que a confissão católica “é bastante eficaz e terrivelmente dolorosa quando feita corretamente (…) Mas, por meio dela, Deus oferece o perdão, a absolvição e um sentimento de purificação”.

Taizé – A comunidade fundada na década de 1940, na Borgonha, França, é ecuménica desde as origens e na sua identidade. Roger Louis Schütz-Marsauche, conhecido por Irmão Roger ou Roger de Taizé (1915-2005), cristão suíço da Igreja Reformada (calvinismo), criou-a precisamente para acolher na pobreza e na obediência homens de qualquer confissão cristã. Hoje, enquanto centro internacional de peregrinações juvenis, Taizé é um “laboratório do ecumenismo”, como lhe chamou o semanário digital Ecclesia. Precisamente à Ecclesia, o Irmão David, um português que integra a comunidade, afirmou: “Todas as semanas são ecuménicas, na Comunidade de Taizé, porque nós somos uma comunidade ecuménica, somos irmãos provenientes de diferentes igrejas cristãs, acolhemos jovens de diferentes tradições cristãs. Claro que damos também uma atenção especial à oração pela unidade dos cristãos, que fazemos ao longo de todo o ano, esta semana em comunhão com todos os cristãos que não querem ficar indiferentes ao apelo de Cristo que rezou de facto para que «todos sejam um», e que tantas vezes, nós no nosso dia-a-dia, temos tendência a esquecer”.

Ut unum sint – Encíclica de João Paulo II, corria o ano de 1995, sobre o “empenho ecuménico”. Alguns críticos dizem que no tempo do Papa polaco o ecumenismo estagnou. A encíclica reafirma que é preciso percorrer o caminho que leva à unidade, caminho que começa na oração. “Quando os cristãos rezam juntos, a meta da unidade fica mais próxima”. “Ao alvorecer do novo milénio, como não solicitar ao Senhor, com renovado ímpeto e consciência mais amadurecida, a graça de nos predispormos, todos, para este sacrifício da unidade?”

Vaticano II – O Concílio do Vaticano II significou o abraço oficial da causa ecuménica. Vale a pena recordar o primeiro parágrafo do decreto “Unitatis Redintegratio”, sobre o ecumenismo: “Promover a restauração da unidade entre todos os cristãos é um dos principais propósitos do sagrado Concílio Ecuménico Vaticano II. Pois Cristo Senhor fundou uma só e única Igreja. Todavia, são numerosas as Comunhões cristãs que se apresentam aos homens como a verdadeira herança de Jesus Cristo. Todos, na verdade, se professam discípulos do Senhor, mas têm pareceres diversos e caminham por rumos diferentes, como se o próprio Cristo estivesse dividido. Esta divisão, porém, contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura.”

Watson, Paul – Em 1908, os episcopalianos (tradição anglicana) norte-americanos Spencer Jones e Paul Watson lançaram o “Oitavário para a unidade da Igreja”, entre os dias da Cátedra de São Pedro (18 de janeiro) e da Conversão de São Paulo (25 de janeiro), datas que ainda se mantêm no hemisfério norte. A primeira semana teve grande acolhimento na tradição anglicana. Paul Watson converteu-se depois ao catolicismo e semana de oração entrou na Igreja Católica para, no início, ser um tempo de oração pelo “retorno” dos cristãos separados. A partir de 1935, o P.e Paul Couturier deu um novo impulso à semana, tornando-a verdadeiramente ecuménica, promotora da “unidade que Deus quiser, quando Ele quiser e com os meios que ele quiser”. Com estes dois nomes é justo salientar outros católicos que se destacaram antes de o movimento ecuménico ser oficialmente reconhecido e apoiado no Vaticano II: P.e Fernand Portal, que promoveu o diálogo com os anglicanos nas célebres “Conversações de Malines” (1921-1925), ou o monge Lambert Beauduin, fundador do Abadia da União de Chevetogne (com rito católico e ortodoxo e aberta a outras espiritualidades cristãs).

XP – XP (Xhi – Rô) são as primeiras letras de Cristo em grego. Faltar à unidade é faltar a Jesus, que a pediu: “Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão de crer em mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo 17,20). A falta de unidade prejudica a credibilidade dos cristãos e é a própria humanidade que sofre com esta incapacidade eclesial.

(ABC do Ecumenismoparceria com o jornal diocesano, Correio do Vouga)