ABC do Ecumenismo III/IV

ABC do Ecumenismo III/IV

Jorge Pires Ferreira

Justificação – A questão da justificação pela fé (ou salvação) foi o ponto teológico mais importante da reforma luterana. Lutero dizia que era “o primeiro e principal artigo”. Na questão da salvação, os luteranos realçavam a absoluta primazia de Deus (a fé), enquanto os católicos acentuavam a cooperação humana (as obras). Ora, em 1999, depois de anos e anos de diálogo, luteranos e católicos assinaram uma declaração conjunta em que se afirma que as duas confissões professam a mesma doutrina da justificação. No ponto 15 do documento assinado no dia 31 de outubro de 1999 na cidade de Augsburg, afirma-se: “Confessamos juntos: somente pela graça, na fé na obra salvífica de Cristo, e não por causa do nosso mérito, somos aceites por Deus e recebemos o Espírito Santo, que nos renova os corações e nos capacita e chama para as boas obras”. Como fica a teologia católica? “Quando católicos dizem que o ser humano “coopera” na preparação e na aceitação da justificação por assentir à ação justificadora de Deus, eles veem mesmo nesse assentimento pessoal um efeito da graça, e não uma ação humana a partir de forças próprias”, esclarece a declaração, que é um passo importantíssimo na aproximação entre católicos e luteranos.

Kasper, Walter –  O teólogo alemão que nos últimos tempos tem estado sob os holofotes por defender uma interpretação mais misericordiosa da indissolubilidade do matrimónio foi presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos entre
2001 e 2010. O atual presidente é o cardeal suíço Kurt Koch. Pouco depois de deixar o Conselho Pontifício, Kasper contou com humor a principal dificuldade que sentiu enquanto esteve à frente do organismo vaticano para o ecumenismo: foi beber vodka nas conversações com os responsáveis da Igreja Ortodoxa Russa. Um dia, um metropolita russo insistiu que o cardeal bebesse vodka ao pequeno-almoço. O que valeu foi que a vodka era bastante boa – disse o cardeal alemão.

Lutero – Martinho Lutero (1483 – 1546) foi monge agostinho e professor de teologia. Por não concordar com as indulgências que estavam a ser vendidas para financiar a construção da Basílica de São Pedro, escreveu 95 teses (não é fidedigno que tenham sido fixadas na porta da igreja-castelo de Wittenberg) e tornou-as públicas no dia 31 de outubro de 1517 – o início da Reforma. A tese 27 afirma: “Pregam doutrina mundana os que dizem que logo que a moeda é lançada na caixa tilinta, a alma sairá a voar do purgatório para o céu. E a 28: “Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus”. As ideias de Lutero tiveram grande acolhimento nos príncipes alemães, que viram no apoio a Lutero uma forma de independência em relação a Roma e ao Sacro Império Romano-Germânico de Carlos V. E a Reforma tornou-se imparável. Durante séculos, a figura de Lutero foi desprezada pelos católicos (em Portugal, só em 2014 surgiu uma obra de vulto sobre Lutero, o livro do P.e Carreira das Neves). Tal já não acontece desde meados do séc. XX. Aguardam-se, por isso, com boas perspetivas, as comemorações dos 500 anos do início da Reforma, em 2017.

Metodistas – O metodismo, na sua origem, foi um movimento de despertar espiritual surgido no anglicanismo do séc. XVIII realçando a relação íntima do crente com Deus e uma vida ética exemplar. Nas origens do metodismo estão o líder John Wesley, Charles Wesley (seu irmão e autor de hinos) e George Whitefield (grande pregador). John Wesley queria permanecer anglicano, mas ele e os seus seguidores foram excluídos da Igreja Anglicana em 1740. Em 1993 foi assinado um “histórico” Pacto Anglicano-Metodista em que as duas confissões manifestam vontade de aproximação. A Igreja Metodista é a confissão protestante mais expressiva em Aveiro, com templos e uma relevante instituição de solidariedade (Fundação CESDA).

Niceia – No ano 325, na cidade de Niceia (Turquia), realizou-se o primeiro concílio ecuménico (no sentido de global, para “toda a terra habitada”). Dele saiu o Credo (ou símbolo); que os católicos, os ortodoxos, os anglicanos e outras confissões protestantes aceitam (com alguns acrescentos saídos do Concílio de Constantinopla, em 381). Esta aceitação do Credo de Niceia e Constantinopla é um dos pontos em comum para todos os que participam no movimento ecuménico (aqui no sentido de aproximação entre confissões cristãs), bem como o reconhecimento do Batismo celebrado em nome da Trindade.

Ortodoxos – Os ortodoxos são cerca de 250 milhões, principalmente no Leste da Europa. Podemos dizer que a Igreja Ortodoxa começou em 1054, quando o Papa excomungou o Patriarca Cerulário de Constantinopla, originando o chamado “Cisma do Oriente”. Os ortodoxos, por seu lado, sustentam que naquela data surge o catolicismo e que eles têm dois mil anos de história enquanto tal. Os ortodoxos não reconhecem a primazia papal (muito menos a infalibilidade papal), nem dogmas como o da Imaculada Conceição. E neles não se sentiu a influência, por vezes esmagadora no catolicismo, de Santo Agostinho. Hoje, e desde que Paulo VI e o patriarca Atenágoras levantaram a excomunhão mútua (e Bento XVI renunciou ao título de “Patriarca do Oriente”), a relação entre as duas confissões é cordial, com contactos frequentes, como quando o Papa Francisco esteve na Terra Santa e na Turquia.

Paulo – A frase de São Paulo “O justo viverá pela sua fé” (Romanos 1,17) está no centro da teologia luterana. A interpretação dos escritos paulinos, nomeadamente a Carta aos Romanos, foi uma contante no protestantismo, muito mais do que no catolicismo. Os grandes teólogos protestantes, de Lutero a Barth, estudaram a fundo a Carta aos Romanos. Lutero escreveu: “Esta carta é verdadeiramente a mais importante peça do Novo Testamento. É o evangelho mais puro. É de grande valor para um cristão não somente para memorizar palavra por palavra, mas também para o ocupar com isso diariamente, como se fosse o pão diário da alma”. E não é por acaso que a semana de oração pela unidade dos cristãos termina no dia litúrgico da conversão de São Paulo (25 de janeiro).

Quakers – Os quakers (ou quacres) são um grupo (seita?) saído do anglicanismo do séc. XVII. Por não aceitarem o batismo, são exemplo dos muitos grupos, movimentos e seitas que não integram o movimento ecuménico. Na origem, os quakers (“quaker” que dizer “tremedor”, nome com que os ridicularizavam mas que eles próprios aceitaram) pretendiam restaurar a fé cristã original, intitulando-se “Santos”, “Filhos da Luz” ou “Amigos da Verdade”, sendo conhecidos também por Sociedade Religiosa dos Amigos. Aceitam a Bíblia e Jesus Cristo, mas não o batismo nem a organização clerical. São cerca de 400 mil no mundo, principalmente na Inglaterra nos EUA e no Quénia. Defendem a igualdade social, são feministas e pacifistas, estando na origem de organizações como o Greenpeace e a Amnistia Internacional.

Roma – Roma é uma pedra no sapato das relações entre católicos e restantes confissões. Já foi mais, mas ainda é. Para a generalidade dos protestantes, os católicos são “romanos”, a Igreja Católica é a “ICAR – Igreja Católica Apostólica Romana” e Roma simboliza quase tudo o que os cristãos não deverem ser: riqueza, poder, arrogância, centralismo. Quando o Papa Francisco escolheu viver em Santa Marta em vez do Palácio Apostólico, invocou “razões psiquiátricas”. Não gosta de estar sozinho. Mas talvez tenha pensado nas palavras do teólogo Hans Urs von Balthasar, que sugeriu em 1972 que, para acabar com o “escândalo inútil”, seria bom que o Papa “transformasse o Vaticano num museu e se transferisse para a entrada de Roma”. Quem diz entrada, diz periferias.

(ABC do Ecumenismoparceria com o jornal diocesano, Correio do Vouga)