ABC do Ecumenismo II/IV

ABC do Ecumenismo II/IV

Jorge Pires Ferreira

Evangélicos – Por vezes, toma-se “evangélicos” como sinónimo de “protestantes”, mas tal equiparação não está correta. Ou melhor, nos países germânicos, “evangélicos” designa os protestantes no seu conjunto. Mas nos países de língua inglesa (e por extensão nos outros países) “evangélicos” e “evangelismo” designa uma corrente nascida no seio do protestantismo. O evangelismo surge no séc. XVIII (quando o protestantismo já tinha dois séculos), na Europa, como um despertar religioso. Nos Estados Unidos, nos séculos XIX e XIX, o “despertar” (ou “Grande Despertar”) é muito mais vigoroso e abrangente. São quatro as características dos evangélicos: – enfatizam a conversão pessoal, o “despertar” ou “renascimento”; – valorizam a Bíblia; – realçam a morte e a ressurreição de Jesus Cristo; – querem difundir ativamente o Evangelho. Em alguns grupos evangélicos emergem fundamentalismos, geralmente baseados na interpretação da Bíblia à letra, que não participam no movimento ecuménico. O movimento evangelista está muito presente nos pentecostais, nos metodistas e nos batistas e também entrou na Igreja Católica, com menor expressão e principalmente nos EUA. No início foi repudiado pela hierarquia, mas depois do Vaticano II os bispos escreveram documentos orientadores. Em Portugal, existe desde 1921 a Aliança Evangélica Portuguesa, que é uma “associação que congrega e representa” a quase totalidade das igrejas protestantes em Portugal.

Francisco – O Papa Francisco já deu a entender que o ecumenismo se faz com gestos concretos, com amizade, com abraços, independentemente das convicções que separam os cristãos. Sem considerar o diálogo com o judaísmo (e o seu amigo judeu argentino Abraham Skorka) e as outras religiões, quanto ao ecumenismo o Papa deu vários grandes sinais. Em maio de 2014, na visita à Terra Santa, abraçou o Patriarca de Constantinopla (como Paulo VI, 50 anos antes) e convidou-o a entrar em primeiro lugar no Santo Sepulcro, um lugar que deveria ser de união (a ressurreição de Jesus), mas que é, ele mesmo, foco de disputas entre as seis confissões cristãs que partilham a sua custódia (são célebres os casos de pancadaria entres os monges). O Papa está convencido que a união é possível: “As divergências não devem assustar-nos e paralisar o nosso caminho. Devemos acreditar que, assim como foi removida a pedra do sepulcro, assim também poderão ser removidos todos os obstáculos que ainda impedem a plena comunhão entre nós”. Na viagem à Turquia, em finais de novembro, Francisco rezou pela unidade e pediu a bênção ao Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, o qual, aliás, estivera na cerimónia de início do pontificado de Francisco, gesto inédito desde a separação de 1054. Menos conhecida é a visita de Francisco a uma igreja evangélica pentecostal, no sul da Itália, no dia 28 de julho de 2014. Falando a 350 evangélicos, o Papa pediu desculpa pela perseguição durante o regime fascista italiano (1922-1943). “Entre os que perseguiam e denunciavam pentecostais, quase como se fossem pessoas loucas tentando destruir a raça humana, havia também católicos. (…) Eu sou o pastor dos católicos e peço perdão (…)”, disse. E imaginando comentários sobre a primeira visita de um Papa a uma igreja pentecostal, disse: “Alguém vai-se surpreender: «O Papa foi visitar os evangélicos?» Mas ele foi ver os seus irmãos”.

Gutenberg – Gutenberg (1398-1468), inventor da imprensa de caracteres móveis, teve uma dupla importância na reforma protestante. Primeiro, segundo conta Tim Harford (no livro “Adapte-se. O sucesso começa sempre pelo fracasso”), após ter-se visto quase na falência devido à impressão da Bíblia, encontrou um modelo de negócio lucrativo na impressão de indulgências. A indústria da impressão tornou-se viável porque passou a imprimir em grande escala os perdões divinos que eram vendidos para financiar a construção da Basílica de São Pedro, em Roma. Como se sabe, a tomada de posição de Lutero contra as indulgências foi o que desencadeou a Reforma. Ora, quando a indústria da impressão já estava a tornar-se viável, Lutero, nascido 15 anos depois da morte do seu compatriota, vai servir-se dela para divulgar a sua tradução da Bíblia, impressa a relativo baixo custo para o tempo. Com uma Bíblia acessível a todos, a Reforma tornou-se imparável (e, involuntariamente, Lutero unificou a língua alemã). Por isso, Lutero exclamou: “A impressão é o último dom de Deus e o maior. Por seu intermédio, Deus quer dar a conhecer a verdadeira religião a toda a terra e expandi-la em todas as línguas. É a chama que brilha antes da extinção do mundo”.

Henrique VIII – Por não ter descendentes do sexo masculino, Henrique VIII de Inglaterra (1491-1547) quis ver o seu casamento declarado nulo por Roma, mas não conseguiu. Por isso, negou a obediência ao Papa e nacionalizou a Igreja. Com o “Ato de Supremacia” de 1534, o Parlamento de Inglaterra declarou que Henrique VIII era “o único chefe supremo na Terra da Igreja na Inglaterra”. O curioso é que, no início do reinado, Henrique VIII era um católico devoto, tendo publicado em 1521 uma defesa dos sete sacramentos contra o protestantismo nascente. O escrito, “Assertio Septem Sacramentorum”, fez com que o Papa Leão X lhe atribuísse o título “Fidei Defensor” (defensor da fé), ainda hoje usado pelos monarcas ingleses.

Igrejas, Conselho Ecuménico das – O Conselho Ecuménico das Igreja (CEI), ou Conselho Mundial das Igrejas, nasceu em 1948 na Holanda e hoje tem sede em Genebra, na Suíça. Esta “associação fraterna das Igrejas que confessam o Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador segundo as Escrituras, e procuram responder juntas à sua comum vocação, apenas para glória de Deus Pai, Filho e Espírito Santo” (n.º 1 da Constituição do CEI) surgiu como fruto do movimento ecuménico moderno, iniciado com a conferência mundial de Edimburgo, em 1910. Fazem parte do CEI 340 igrejas e denominações cristãs que representam mais de 500 milhões de cristãos. A Igreja Católica não integra o CEI, primeiro porque no início não concordava com o movimento ecuménico, agora porque com os seus mais de mil milhões de fiéis desequilibraria o CEI. No entanto, alguns dos seus movimentos, como os Focolares, são muito participativos no CEI. E o Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos costuma estar nas assembleias gerais, que se realizam de sete em sete anos. A última (10.ª) foi na Coreia do Sul, em novembro de 2013. Na ocasião, o cardeal Kurt Koch leu uma mensagem do Papa Francisco que afirmava logo no início: “Asseguro-vos o meu grande interesse pastoral pelas deliberações da assembleia e confirmo de bom grado o compromisso da Igreja católica em dar continuidade à sua longa cooperação com o Conselho Ecuménico das Igrejas”. O secretário-geral do CEI é o pastor luterano norueguês Olav Fykse Tveit.

(ABC do Ecumenismoparceria com o jornal diocesano, Correio do Vouga)