ABC do Ecumenismo I/IV

ABC do Ecumenismo I/IV

Jorge Pires Ferreira

Anglicanos – Os anglicanos são hoje, no mundo, cerca de 80 milhões. Destes, 13 milhões estão na Inglaterra. Os outros estão espalhados principalmente pelos países de língua inglesa, a começar pelos EUA (onde se chamam Igreja Episcopal). O líder da Igreja Anglicana é arcebispo de Cantuária, atualmente Justin Welby (105.°), mas a autoridade máxima é o rei ou rainha de Inglaterra. No início da separação, no séc. XVI, o anglicanismo foi um cisma. Henrique VIII fez-se nomear pelo parlamento chefe da igreja inglesa, rompendo com Roma. Progressivamente, os anglicanos aproximaram-se dos luteranos e dos calvinistas, mas são, ainda hoje, os protestantes mais próximos da Igreja Católica, tanto nos ritos como no Credo ou mesmo pela existência de vida religiosa em mosteiros e conventos. Questões polémicas dentro do próprio anglicanismo, como a ordenação de mulheres (desde há poucas semanas também no episcopado), dificultam o diálogo ecuménico.

Bíblia – A Bíblia tem sido a fonte de quase todas as divisões entre cristãos, pelo menos nos tempos modernos (na divisão entre católicos e ortodoxos houve outras razões), em grande medida porque há dois grandes modos de interpretar a Bíblia na Igreja Católica e nas restantes confissões. A Igreja Católica defende que é a própria Igreja, assistida pelo Espírito Santo, que é a autoridade que pode interpretar a Bíblia. Os protestantes, desde Lutero, defendem a livre interpretação individual do texto sagrado. Se, por um lado, os estudos bíblicos se desenvolveram muito mais no protestantismo até ao século XX, graças ao livre acesso à Bíblia e à sua valorização como autoridade suprema (o “sola Scriptura”, isto é, “só a Escritura”, contra a autoridade eclesiástica e a Tradição), por outro, foi impossível parar as subdivisões de comunidades que as diferentes interpretações geraram. E a pulverização continua nos dias de hoje. Atualmente, os estudos bíblicos católicos estão a par dos dos protestantes, a leitura da Bíblia é aconselhada a todos os cristãos e a investigação bíblica é um dos palcos onde o ecumenismo tem dado mais frutos, sobressaindo a Tradução Ecuménica da Bíblia, feita por protestantes e católicos, na década de 1970, em França. Outra questão é se a Bíblia dos católicos é igual à dos protestantes. Dada a pluralidade de confissões protestantes, é difícil dar uma resposta completa em poucas linhas. A Igreja Anglicana segue a mesma Bíblia (com o mesmo número de livros) que os católicos. O mesmo não acontece com diversos protestantes e evangélicos. A questão resume-se a isto: Há livros do Antigo Testamento que não estão na Bíblia Hebraica (mas estão na Bíblia dos Setenta, em grego, que mais influenciou o cristianismo nascente) e por isso alguns protestantes não os aceitam. São eles: Tobias (ou Tobite), Judite, I Macabeus e II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico (ou Sirácide ou Ben Sirá), Baruc e ainda partes de Ester e de Daniel. Mas também há confissões protestantes que os acrescentam como deuterocanónicos (isto é, que entraram num segundo momento no cânone, na lista dos livros sagrados). O mesmo acontece com algumas cartas do Novo Testamento. Mas em relação a estas (Tiago, Hebreus, 2 Pedro, 2 e 3 João…), hoje, a generalidade das bíblias protestantes inclui-as nas suas edições.

Calvino – João Calvino nasceu em Noyon, norte de França, no dia 10 de julho de 1509, e morreu em Genebra, Suíça, no dia 27 de maio de 1564. Seguindo algumas das intuições de Lutero, quebrou com a Igreja Católica em 1533, refugiou-se na Suíça, e em 1536 publicou “Instituições da Religião Cristã” (“Institutio Christianae Religionis”). Em Genebra fundou um estado teocrático e persecutório (mais tarde, os calvinistas seriam os primeiros a pedir desculpas pelos próprios erros). Após a morte de Calvino, os calvinistas franceses (ou huguenotes) foram dizimados na “noite de São Bartolomeu”, em 1572. Os calvinistas, também conhecidos por Igreja Reformada e presbiterianos, são cerca de 70 milhões, e estão principalmente na Escócia, Holanda, Suíça, França, África do Sul, Coreia do Sul, Austrália e Estados Unidos. Acreditam na predestinação, administram o Batismo, mas não acreditam na presença real de Jesus na Eucaristia. “Isto é o meu corpo”, segundo os calvinistas, deve ser compreendido como “isto significa o meu corpo”. Defendem uma colaboração estreita entre leigos e pastores, fomentam o espírito de iniciativa e preocupam-se com os problemas sociopolíticos. Estas últimas características do calvinismo, que alguns dizem ser consequência inesperada da teologia da predestinação (segundo a qual, Deus determina desde as origens cada ser humano para a perdição ou a salvação), levou alguns pensadores a associarem o calvinismo ao capitalismo. Um dos maiores teólogos do século XX, Karl Barth, é calvinista.

Divisões – O cristianismo sempre foi marcado por lutas internas, ora superadas em concílios ou no apelo a uma autoridade, ora resultando em divisões. A primeira grande polémica, sobre se os pagãos tinham de se tornar judeus para poderem ser cristãos, foi resolvida no Concílio de Jerusalém (Atos dos Apóstolos, capítulo 15). Manteve-se a unidade. Houve, porém, três grandes momentos de divisão, nos séculos V, XI e XVI. Em alguns concílios, a procura da verdade da fé não promoveu a unidade, mas consumou a separação. No século V, depois dos concílios de Éfeso (431) e Calcedónia (452), cidades na atual Turquia, separaram-se os nestorianos e os monofisitas, que geraram as igrejas coptas, arménias, sírias, etíopes e malabares, que ainda existem e têm na totalidade cerca de 20 milhões de cristãos. Muitos deles são hoje perseguidos na instabilidade do Médio Oriente. Com todos estes ramos antigos a Igreja Católica tem ótimas relações. No século XI, a grande cristandade dividiu-se em duas partes. Católicos no ocidente e ortodoxos no oriente europeu. Foi uma gota de água que consumou a divisão, no ano 1054 – os católicos dizem que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho; os ortodoxos dizem que (só) procede do Pai –, mas ela na realidade há largos séculos que se vinha cavando. Os sacramentos são os mesmos, mas a liturgia era diferente, tal como a legislação e aspetos como o celibato dos padres (não obrigatório para os ortodoxos) e a barba (obrigatória para os ministros ortodoxos) e, acima de tudo, a língua, que no oriente era o grego, quase por ninguém entendido no ocidente, onde o latim era a língua eclesiástica e científica. No século XVI, a Igreja Católica viu-se atingida pelas mais trágicas divisões. Primeiro, Lutero, em 1517, depois Calvino, em 1533 (alguns entendem o calvinismo como um desdobramento do luteranismo), e depois Henrique VIII, em 1534. Em poucas décadas, a Europa transfigura-se. Os países latinos, a Irlanda, a Áustria e parte dos eslavos continuam católicos. A Inglaterra torna-se uma igreja nacional, anglicana. A Alemanha divide-se entre católicos e luteranos. Os países escandinavos tornam-se todos luteranos. E o calvinismo domina na Holanda e em partes da Suíça, França e Escócia. O Concílio de Trento (15451563), convocado tardiamente se tivermos em conta os seculares apelos à reforma, reforçou a identidade católica, mas não fez retroceder qualquer divisão. Com a divisão religiosa e muitos nacionalismos à mistura, veio a discórdia internacional. A paz só chegou em 1648, no fim da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Diversos pensadores sustentam que as guerras religiosas dos séculos XVI e XVII são ainda hoje a principal causa de indiferença religiosa e ateísmo na Europa.

(ABC do Ecumenismoparceria com o jornal diocesano, Correio do Vouga)