A propósito da tertúlia sobre «como cuidar do património religioso?»

ARTES E DIMENSÃO SACRA

Vítor Serrão (Texto)

No debate recente [28 de junho de 2017] promovido no Centro Universitário Fé e Cultura [numa parceria com a Comissão Diocesana da Cultura] reflectiu-se sobre a imperiosidade de se cuidar da arte cristã como obras de arte que são, para além de peças de liturgia que são ou foram. Afirmei a minha convicção profunda de que toda a arte é sagrada – ou não é arte. De facto, seja ela de afirmação cristã ou sem motivação religiosa, não deixa de assumir sempre, na sua essencialidade física e no seu poder de comunicabilidade, uma componente ética, estética e humanística. E, também, um discurso dotado de comprometimentos com graus de espiritualidade mais ou menos visíveis — com uma aura que perdura para além da dimensão utilitária, política ou religiosa, que em algum momento lhe deu forma.

Por tudo isso, o papel do historiador de arte junto dos detentores do património diocesano e paroquial é sempre muito importante. Por tudo isso também, há que ver sempre as obras de arte — a cristã, as de outras religiões, e todas as outras que não se expressam no plano religioso — como documentos estéticos, que são por inteiro, e por isso mesmo dignos da maior protecção. São testemunhos culturais vivos e eloquentes, aptos a ser fruídos com olhos de fé ou com agnosticidade. Podem e devem servir os crentes e o culto, como intermediárias de fé, mas são, antes e sempre, obras de arte – património da comunidade inteira. 

Mais uma razão – voltando à arte cristã, riquíssima em quantidade e em qualidade, no que ao património português diz respeito – para inspirarem todos os cuidados preventivos, estudo integrado, inventariação, divulgação adequada, medidas de salvaguarda e conservação. Como disse Sandra Costa Saldanha, cuidados de pinça e sensibilidade a jorros, que nunca são demais. A Diocese de Aveiro, aliás, vem dando bom exemplo dessas práticas. Assim sendo, debates como este ajudam, por certo, a fermentar a consciencialização por estes bens, as boas práticas na sua salvaguarda – e as ideias estéticas que lhes dão corpo e poder de encantação.

Se as obras de arte cristãs fossem vistas apenas e só como um exclusivo dos crentes e um património apenas da Igreja Católica, pobres ficaríamos na nossa capacidade de ver e sentir – pois as obras de arte são mais-valias da comunidade no seu conjunto! O mesmo se dirá, por isso, das artes produzidas no seio de outras religiões: urge combater a iconoclastia em todas as suas nefastas latitudes. Pois todas são património da humanidade e transcendem a sua dimensão de culto, importante e inequívoca, mas não a única e muito menos a última.

[Foto: Correio do Vouga: 

Na imagem, Sandra Saldanha, Vítor Serrão (palestrantes) e Hugo Cálão e Pe. Gustavo Fernandes (moderadores)]