«A Minha vida começa novamente cada manhã.»

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

 

Carta de 12 de Fevereiro de 1928 à Irmã Callista Kopf , Obras Completas – Cartas, 45.

Contexto: A destinatária, Elisabeth Kopf (1902-1970), foi preparada para o bacharelato por Edith Stein. Recebeu o nome de irmã Calliste, como dominicana, em 1927. Edith Stein regozijava-se porque «de agora em diante celebramos os nossos santos padroeiros uma com a outra.» (Carta de 12 de outubro 1927) Edith (que se tornou Teresa Hedwige depois do seu batismo) celebra Teresa a 15 de outubro. São Calisto é festejado a 14 de outubro. A irmã Calliste era, nessa altura, estudante em Munique com duas outras jovens dominicanas, daquelas a quem Edith gostava de chamar «as minhas filhas grandes» uma vez que ela tinha contribuído para a sua formação como professora em Spire.

«Gostaria de responder às suas questões mais importantes. Naturalmente, a religião não é para se viver num cantinho tranquilo, durante umas horas, ou nas grandes festas mas deve, tal como já o pressentiu pessoalmente, ser a raiz e o fundamento de toda a vida e isto não apenas para alguns eleitos, mas para todo o cristão verdadeiro (dos quais seguramente não resta se não «um pequeno rebanho»). Só através de São Tomás [de Aquino] é que eu compreendi verdadeiramente que é possível praticar a ciência como um serviço a Deus. (…)

E foi só nesse momento que eu me consegui decidir a retomar seriamente o trabalho científico. Na época que precedeu imediatamente a minha conversão e durante todo um período seguinte, pensei que viver a religião significava abstrair-me de tudo o que era terreno para não viver se não para pensar apenas nas coisas de Deus. Mas progressivamente compreendi que nos é pedida outra coisa neste mundo e que, mesmo na vida mais contemplativa não temos o direito de cortar a relação com o mundo; creio mesmo que quanto mais profundamente estamos mergulhados em Deus mais importante é também, neste sentido, «sair de si», quer dizer, ir ao encontro do mundo para lhe levar a vida divina.

Importa simplesmente ter, durante os factos, um canto tranquilo onde possamos conversar com Deus como se não existisse absolutamente mais nada, e fazer isto todos os dias: as horas matinais parecem-me convenientes para isso, antes que o trabalho quotidiano comece; tanto mais que, sendo esta a nossa missão particular que aí recebemos, ou, melhor ainda, que recebemos dia após dia, e que não escolhemos nada por nós próprias, enfim, que nos consideremos puramente e simplesmente como um instrumento, e também especialmente as faculdades com as quais devemos trabalhar em especial, a saber, no nosso caso, o entendimento, que o consideremos não como algo nós manejamos, mas como algo que Deus maneja em nós. Aí tem o meu método… A minha vida começa nova cada manhã e acaba cada noite; não devemos fazer planos nem projetos para além disso; quer dizer, isto pode naturalmente fazer parte do nosso trabalho quotidiano de previsão – o ensino, por exemplo, seria impossível fazer-se sem isso – mas não deverá jamais tornar-se uma «preocupação» para o dia seguinte. Assim, já pode compreender que eu não possa aceitar que me diga que «me tornei alguém». Parece-me que a esfera da minha tarefa se estendeu [Edith começa nessa altura a sua atividade de conferencista]. Mas isso não altera nada ao que eu sou, segundo penso.»