‘8 1/2’ – Rubrica de Cinema | Uma parábola para a Páscoa

‘8 1/2’ – Rubrica de Cinema 

Uma parábola para a Páscoa

Pe. Teodoro Medeiros

A questão das mediações não é imediata ela própria: cada realidade è apropriada já em desvantagem e ilusão, produzindo às vezes tanto de engano como de luz. O fenómeno é mais notório à medida que as experiências a que se referem as mediações se tornam mais abstratas: Deus, por exemplo, não é passível de experiência direta, são precisas intermediações.

Ainda acerca de Deus e abrindo o leque, duas posições têm valor arquetípico: na primeira, a sua presença é sempre pura, imaterial, e portanto sempre direta, ativa, específica (já que Ele não se confunde com nada do que criou); ao passo que, no outro extremo, qualquer facto natural reporta necessariamente ao criador.

No primeiro caso, o defeito óbvio é ser difícil justificar qual a natureza ou necessidade dos sacramentos (uma vez que não existem sem a matéria); no segundo perdem-se as coordenadas da revelação divina: porque se tudo nos fala de Deus, então também o é que nada O pode exprimir (não é um paradoxo mas sim uma evidência).

E o problema maior destes dilemas é esquecerem-se de Deus em Si mesmo (finalmente um paradoxo!). Bem recorda santo Agostinho no sermão 52: “o que compreendeste não é Deus.” Estas questões filosóficas são úteis: recordam-nos que é possível olhar de outra forma e em outros lugares também para poder ver. Porque o perigo da mediação é tornar-se mais importante do que aquilo que representa.

No cinema passa-se o mesmo: de um lado o radical chique (tudo deve ser diferente de tudo o que já se viu), do outro a conveniência pessoal (o filme é bom porque diz o que eu penso). O resultado também é semelhante, a perda da noção do essencial: a honestidade na procura da verdade maior, algo que no caso do cinema é muito difícil de definir. Ou talvez não tanto.

Tomemos o filme “O filho” dos irmãos Dardenne: a história de um cidadão comum, um carpinteiro excedentemente anónimo, não obstante o frequente “Olivier” posto na boca de quem o rodeia. Que interesse poderá ter a sua quotidianeidade? Apresentado na sua dedicação às tarefas profissionais, que segredos nos pode reservar este homem?

A objectiva segue-o nos seus movimentos e paragens, aproximando-se, desviando-se e espreitando como uma mosca persistente e silenciosa. Porque ele é o centro, mas o centro de quê? Cedo saberemos mais sobre a sua sofreguidão ativa, não uma força inata mas uma necessidade: abaixo da superfície, um qualquer caos rege a sua disciplina.

Quando a ex-mulher o procura para lhe anunciar que vai casar e vai ter um filho, só o vemos, após uma pausa indeterminada pela hábil montagem da cena, descer as escadas do prédio, sem nenhum tipo de controlo, para lhe perguntar: -“porque me vieste dizer isto hoje?” E começamos a agitar-nos com ele, sem saber porquê.

Olivier aceita na sua escola profissional um delinquente. Inicialmente recusa-o mas, como que hipnotizado, começa a seguir o rapaz e acaba por oferecer-se diretamente para o ensinar. À ex-mulher dirá apenas a primeira parte da estória, negando qualquer probabilidade de reencontro com o adolescente.

É a hora de cair o véu: a estória do casal cruzara-se anos antes com o rapaz ex-recluso, a sua pena de 5 anos referia-se a um homicídio durante um roubo, o mesmo roubo em tinham perdido o seu filho. Uma pergunta emerge portanto do caudal narrativo (e que está no próprio filme): -“porque o fizeste?” -“Não sei.”

Cedo se criará uma tensão, um medo que nos percorre: e se Olivier quisesse vingar-se? A sua aproximação ao rapaz é nervosa mas vai mais além da sua obrigação; pequenos momentos de choque, o que poderão indiciar? O mestre convida o aluno para ir com ele a um armazém de madeira fora da cidade durante o sábado: o que pretenderá?

A viagem é longa o suficiente para deixar indícios ambíguos: estará o homem a deixar-se arrastar para o passado? Terá apenas uma mórbida curiosidade? Ou terá conseguido manter para connosco segredo sobre um seu óbvio plano? Dentro do armazém, dir-lhe-á diretamente: -“o rapaz que mataste era meu filho.”

Os Dardenne não são assépticos por relação a comentário social mas aqui parece tratar-se de algo diferente: um conto sem leituras explicitadas sobre o que é o perdão, um existencialismo tanto mais aberto à transcendência quanto desprovido de referentes, uma afirmação do humano a partir da debilidade mas sem castrações.

Recordando a parábola de Lucas, é sempre mais fácil ser o filho mais velho do que o pai corajoso. O que leva Olivier a deixar partir o filho e ficar com o carpinteiro (vinhateiro) homicida? Se se compreende tudo, talvez não seja bom cinema.