70 ANOS DUDH | O Direito a Ser Humano

70 ANOS DUDH | REFLEXÕES

O Direito a Ser Humano

Miguel Oliveira Panão*

 

Não há dúvida que ler a Declaração Universal dos Direitos Humanos é uma fonte de inspiração para nos reconhecermos como parte da mesma família humana.

Artigo 1 – Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

Porém, fiquei a pensar se existe distância entre “direitos humanos” e o “direito a ser humano.” O que nos leva a ser humanos? É a razão, a consciência, o agir uns para com os outros em espírito de fraternidade? E se não existissem mais seres humanos no mundo senão um só? Continuaria, esse último ser a ser humano?

Desde o momento da sua concepção que o ser humano possui um património genético irrepetível. Mas os seres humanos não são apenas “dotados de razão e de consciência,” existe algo mais que os distingue e os torna humanos. Digo isto porque ao ver tantos que fazem uso da razão para alimentar o poder que têm de magoar ou terminar a vida de outros seres humanos, perfeitamente conscientes do genocídio que estão a fazer, nitidamente não chega. O que vem a seguir naquele Artigo 1 é o “dever” de que essa acção em relação a outros seres humanos seja em “espírito de fraternidade.” Também aqui não chega. E explico.

Somos todos parte da mesma família humana. O que nos liga é mais do que o património genético, é o facto de existirmos-em-relação. Por isso, devemos agir uns para com os outros por sermos irmãos. É um facto, mas os factos não mudam as mentes. Só os relacionamentos o podem fazer. Enquanto não fizermos a experiência de nos relacionarmos com os outros como sendo parte da mesma família, dificilmente iremos entender o “direito a ser humano.” Porém, há um perigo à espreita que coloca em questão esse direito.

Um dia vi um excerto de um filme dos anos 70 do século passado, que mostrava o modo como se podiam controlar os seres humanos. Na altura, a proliferação da televisão levava a que as pessoas ficassem com o olhar fixo naquele écran e os momentos em família fossem comprometidos. Assim, o cenário distópico era o de que cada ser humano teria um televisor à sua frente. O que acontece hoje? Precisamente esse cenário.

Talvez não nos demos conta disso, mas a nossa criatividade e atenção ao que está à nossa volta é fortemente influenciada pelo tempo que passamos diante dos pequenos écrans dos nossos – ditos – smartphones, de tal modo que nos imergimos no mundo virtual e alienamo-nos do mundo real. E se esta alienação é preocupante nos jovens, mais preocupante ainda é nos adultos. Aqueles que possuem os modelos a apresentar aos jovens e não o fazem.

Num artigo recente na revista Scientific American, a evolução do ser humano ocorre porque esse possui a capacidade de ensinar aquilo que aprende às novas gerações. Enquanto outras espécies começam sempre, ou quase-sempre do zero, nós não. Mas se cada ser humano se volta cada vez mais para si mesmo e o mundo virtual onde vive, como poderá transmitir o fascínio do mundo real à nossa volta que nos ajude a descobrir, através dos relacionamentos, o que nos torna “realmente” humanos?

A proliferação do cenário virtual distópico em que todos estamos actualmente imersos, onde a política se faz com tweets, as notícias podem não ser verdadeiras, o tempo para os relacionamentos esgota-se em horas a fazer scrolling nas redes sociais, não é uma eminência, mas uma realidade. Daí que o “direito a ser humano” adquira hoje o seu sentido e significado. Mas há uma esperança.

Quando um Papa escreve um documento tão interno como uma Encíclica, admirado por muitos, incluindo fora da Igreja Católica, como aconteceu com a Laudato Si’, e ao estar atento às suas palavras que, sistematicamente, apontam para ver no outro um outro Jesus que tenho oportunidade, e está ao meu alcance amar, há um rasgo de luz no véu da escuridão desta noite cultural.

Há esperança de que o ser humano possa de novo erguer o seu olhar. Descubra todo o potencial dentro de si que o relacionamento com o outro revela. Todo o horizonte se sentido e significado que os confins da terra lhe conferem. Toda a dimensão espiritual humana que Deus lhe abre quando se empenha a fazer a coisa mais simples e mais complexa deste mundo… amar.

*Professor Universitário e Investigador Científico