10 das mais belas bandas sonoras de Ennio Morricone

Artigo, vídeos e foto recolhidos do SNPC

Ennio Morricone, falecido esta segunda-feira aos 91 anos, «tinha a capacidade única de criar uma música que fazia intuir a imagem. Pensemos em “A missão”: o seu motivo musical é inexoravelmente necessário àquela figura de missionário», assinala o presidente do Conselho Pontifício da Cultura, cardeal Gianfranco Ravasi. Aqui se recorda uma seleção de dez das mais de 500 bandas sonoras do compositor que sem hesitação se declarava católico.

“Por um punhado de dólares” (Sergio Leone, 1964)
Anti-retórica, empoeirada, experimental, irreverente, mediterrânea. Em perfeita correspondência com a linguagem visual de Leone, marca um ponto sem retorno nas imagens sonoras do oeste.

O bom, o mau e o vilão” (Sergio Leone, 1966)
Assim como para Leone, a Morricone chega ao topo. O mestre, com uma composição livre e repleta de efeitos, reescreveu as regras de todo um género.
“Passarinhos e passarões” (Pier Paolo Pasolini, 1966)
Os créditos de abertura entoados pelo contador de histórias Domenico Modugno são talvez únicos em toda a história do cinema, pois o próprio filme pertence a uma categoria em si. A peça, um complexo estilístico de pastiche, está entre os mais “cultos” entre os escritos para o cinema. Morricone assinou a banda sonora de cinco filmes de Pasolini.
“Aconteceu no Oeste” (Sergio Leone, 1968)
Novamente juntos após dois anos, para Leone e Morricone o salto em frente é evidente: do épico picaresco à elegia, que assume quase os tons de Puccini na partitura.
“Inquérito a um cidadão acima de qualquer suspeita” (Elio Petri, 1970)
Uma banda sonora claustrofóbica, cheia de sarcasmo, perfeita para o escárnio de Gian Maria Volonté. Com meios mínimos, quase esqueléticos, Morricone constrói uma inexorável máquina narrativa.
“Aguenta-te, canalha!” (Sergio Leone, 1971)
Cada vez mais orquestra e mais melodia: está aberta a estrada do que Morricone será. Os vocalizos sem palavras do soprano (usados como instrumento musical) ficarão como uma das suas marcas.
“O gato de nove caudas” (Dario Argento, 1971)
Morricone compôs as músicas dos primeiros três filmes do mestre do horror. A ambientação permite ao compositor recorrer a uma linguagem particularmente experimental, difícil de propor noutros contextos cinematográficos. Nas músicas para esta película encontramos a escrita do Morricone “culto”, membro de um grupo de vanguarda.
“Processo de Sacco e Vanzetti” (Giuliano Montaldo, 1971)
“Here’s to you”, com a voz de Joan Baez, acompanha, não sem um efeito de estranhamento, as enxutas cenas finais de um filme. Quase o hino de toda uma época.
“A missão” (Roland Joffé, 1986)
Sem dúvida, o auge de toda uma carreira. Música inspiradíssima, e talvez haja uma profunda adesão de Morricone à história dos jesuítas que, na América Latina do séc. XVII, conquistaram os índios com a música – para, depois, serem traídos pelas instituições. Nesta versão, um único grande trecho constrói um crescendo desde o “Oboé de Gabriel” (ícone sonoro contemporâneo), até ao grandioso coro dos nativos. O Óscar que não ganhou foi um verdadeiro furto – a estatueta atribuída por “Os oito odiados” (que não está nesta lista) foi uma compensação tardia.
“Cinema Paraíso” (Giuseppe Tornatore, 1988)
O longo e pungente desenvolvimento da melodia – escrita com o filho Andrea – confiada ao violino, entra na cabeça e já não sai. É o primeiro filme com Tornatore: a colaboração prosseguirá durante quase todos os outros filmes do cineasta siciliano. Daqui em diante, Morricone bandas trilhas sonoras perfeitas, mas algo parecidas entre si: densas, grandiloquentes (ou melodramáticas), ricas de melodias inconfundíveis. O mérito e o limite da marca Morricone.
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Ennio Morricone | D.R.